Crítica | Gambiarra Chic, Pt. 1

★★★★

Em 2021, com Dotadas, as Irmãs de Pau fizeram seu nome como uma dupla única no cenário do funk. Explorando a determinação de identidade ao máximo, a ousadia, frontalidade e potência que as travestis funkeiras mais carismáticas do mundo demonstraram em seu disco de estreia foi algo de dar inveja. “Picumã y Próteses” e “Pedagorgia” são grandes hits até hoje. O álbum, porém, sofreu um pouco com uma certa inconsistência na qualidade das faixas, além de não ter explorado seus temas e variedade sonoras da melhor forma, o que não tem problema, era só o primeiro disco delas.

Em Gambiarra Chic, Pt. 1, porém, tudo que poderia ter sido aperfeiçoado no debut não somente se concretizou como foi superado. O EP é um display inacreditavelmente divertido da sexualidade intensa, sem limites e completamente fora da heteronormatividade de duas travestis. Tanto Vita quanto Isma elevam a ousadia e frontalidade do primeiro disco à mil com uma produção de funk, drill e ballroom destruidora de tímpanos. Eu não faço ideia de como “MEGATRON” e “FOOD FOOD” conseguem ser tão altas.

Para além da produção de possibilidades ilimitadas, as performances das duas são tão diversas quanto. Momentos como as miadas violentas de Isma, estou louca para ver todo esse carisma em outras faixas de funk, em “BRASILEIRINHAS CUNTY” aparecem em todo o álbum: a dupla usa sua capacidade vocal de maneiras tanto divertidas quanto inéditas para criar um ambiente de caos, dinamismo e imprevisibilidade. Você nunca sabe quando as duas vão começar a repetir e gritar palavras que muitas vezes nada significam, apenas estão lá pois torna a faixa divertida. Algumas letras do projeto são hilárias, mas com certeza a minha favorita é : “No peito, carrego o mais importante / Minha família e meu silicone”

O maior brilho do projeto não é, todavia, a sua diversão. Esse mérito vai à forma como as Irmãs de Pau se apropriam de gêneros e se inserem em espaços que não as querem, tanto o hip hop quanto o funk são ambientes, no geral, extremamente transfóbicos, a qual que só pode ser definida como inspiradora. A maioria das letras do álbum jogam na sua cara: eu sou travesti e é assim que eu vivo. São grandes versos exaltando os corpos de travas e, por consequência, os de outras identidades trans, em relações sexuais não normativas, viscerais, orgânicas e, simultaneamente, artificiais, 
todas nós amamos nossos silicones (quando eu tiver um). Como nenhum outro projeto esse ano, Gambiarra Chic, Pt. 1 expressa as identidades, culturas e corpos das travestis de forma exímia.

Como uma membra da letrinha T, ouvi-las me dá uma felicidade imensa; algo dentro de mim desperta, uma vontade inexplicável de gritar na cara de todos: eu quero viver, porra! Saber que esses tipos de vivência são contados de forma tão inescrupulosa e verdadeira me enche não só de orgulho, mas de alegria, esperança e pertencimento. Todas nós merecemos celebrar nossos corpos, e ninguém pode pôr um limite em como deveríamos fazer isso. Essa ideia é o espírito da arte de Isma e Vita, que se definem, com completa razão, como pesquisadoras das estéticas sonoras e visuais da putaria brasileira.

Em suma, as Irmãs de Pau sempre, sem um pingo de arrependimento ou falta de coragem e com o máximo de energia permitido, vão atrás de ocupar lugares que não as querem. Elas se definem por meio da determinação, da garra e, especialmente, pelo amor à vida, e ao sexo, por que não? No funk, no rap e na eletrônica, ambas dão o máximo de si para firmarem sua identidade dentro desses gêneros como travestis. Gambiarra Chic, Pt. 1 é, até agora — pois tenho certeza que vão superar essa marca —, tudo de melhor na música do duo, além de ter algumas das melhores músicas do ano: “FOOD FOOD”, “CUSSY” e “BRASILEIRINHAS CUNTY”. É o futuro da cultura ballroom no Brasil!

Selo: Tratore
Formato: EP
Gênero: Funk / Mandelão, Ballroom, Drill
Sophi

Cursando Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia, 18 anos. Encontrou no Aquele Tuim uma casa para publicar suas resenhas, especiais e críticas sobre as mais variadas formas de música. Faz parte das curadorias de Experimental, Eletrônica, Rap e Hip Hop.

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