Crítica | Love Is Not Enough


★★★

Well, life has some risks. Love is one. Terrible risks.
Anne Carson

Num dos momentos mais antológicos da televisão moderna, Twin Peaks, em seu vigésimo episódio de sua segunda temporada, nos proporcionou uma interação marcante entre dois personagens centrais para a trama. Ao ser sequestrado por Windom Earle e questionado sobre o seu maior medo nesse mundo, o Major Briggs responde sobre a possibilidade do amor não ser o suficiente frente a escuridão do mundo. Para uma obra que virava a sua lente dentro da família americana e expunha todas as fissuras decorrentes do ambiente maligno proporcionado pela própria humanidade, esse temor fazia todo sentido. Em suas respectivas mídias, Twin Peaks e Converge representam um ponto de desorientação para todos aqueles interessados na arte de uma certa forma. 25 anos atrás (pois nada nessa vida é apenas uma coincidência), Jane Doe jogou todo um público de música extrema contra a parede. O seu legado é tamanho que praticamente colocou o grupo como representante-mor de uma geração que empurrou o metal para frente, e as pegadas se representam pela quantidade de álbuns produzidos por Kurt Ballou de duas décadas pra cá. Assim como David Lynch e companhia propulsionaram toda uma geração de TV a seguir os caminhos de Twin Peaks modelou.

Dentro da visão historiográfica da obra do Converge, a própria temática do álbum entra em consonância com passagens marcantes de sua discografia. Num dos pontos mais marcantes de Jane Doe, “Heaven in Her Arms”, a banda trata o amor como uma forma de rendição para a perda da individualidade do eu-lírico frente ao seu outro. Onze anos depois, em “All We Love We Leave Behind”, uma das canções mais potentes sobre a perda de um animal querido, o vocalista Jacob Bannon despeja arrependimentos frente à finitude da vida. Chegamos a atualidade, e se para Twin Peaks a derrota do amor e da humanidade aparecia como uma possibilidade a ser evitada, para o quarteto americano Converge ela já se apresenta como fato consumado. O que surge a partir disso? Aceitar essa condição e seguir em frente ou permanecer inerte frente ao desespero?

A resposta parece estar presente logo no primeiro verso da faixa-título que liga a ignição do álbum: “We must grow to stomach the taste of our own blood”. Depois de uma série de trabalhos atmosféricos, o primeiro álbum solo do Converge em quase 9 anos – se não contarmos com a colaboração Bloodmoon: I, uma colaboração com a artista Chelsea Wolfe – impressiona principalmente por ser um álbum bem mais direto, mais orientado pela veia hardcore do que a do metal. A combinação de “Distract and Divide” e “To Feel Something”, canções de explosões intensas e dissonâncias que remetem ao período anterior a Jane Doe, nunca opta por um caminho fácil através da nostalgia, mas sim explora um passado ao qual não se pode retornar. Nesse ponto, Love is Not Enough pode ser assumido como um disco-síntese da carreira da banda, cuja primeira metade é incisiva na sua abordagem mais hardcore e a segunda metade existe dentro dos moldes metalcore que o Converge tanto ajudou a forjar durante a sua existência.

Quando Twin Peaks retornou em 2017, 25 anos depois de sua exibição original, retornou num cenário de nostalgia vazia que permeia a nossa sociedade até os dias de hoje, e constantemente negou os seus próprios signos, nos tirando de uma posição de conforto e nos negando seus personagens-chave, ao mesmo tempo que adiciona ramificações e faces novas dentro de sua teia narrativa. Escrever sobre uma banda com tanto tempo de estrada como Converge nos coloca numa situação análoga, e existe uma certa autoconsciência da banda desse cenário que transforma esse álbum num dos pontos mais relevantes da música extrema hoje. A bem mais cadenciada segunda metade nos volta ao Converge que nós conhecemos desde sempre, com composições tão intensas quanto cadenciadas. As duas músicas que encerram o álbum, “Make Me Forget You” e “We Were Never the Same”, são dois dos momentos mais intensos da última leva de álbuns da banda, notáveis ​​principalmente por parecerem tão urgentes hoje quanto eram há 20 anos. Assim como o grito de Laura Palmer é a única constante que leva Dale Cooper a perseguir o seu fantasma, frente ao caos de um mundo sem amor, o que carrega Jacob Bannon, Kurt Ballou e companhia são nossas próprias gargantas. “Be your own light when there is none”, grita a banda em “Amon Amok”.

Selo: Epitaph Records
Formato: LP
Gênero: Metal / Metalcore, Hardcore punk

João Pedro Leopoldino

Tudo aquilo que me move é o que me interessa. Natural de Fortaleza/CE, gestor de projetos, música e cinema. Além do Aquele Tuím, escrevo ocasionalmente no Substack num blog pessoal chamado "falando em línguas".

Postagem Anterior Próxima Postagem