Crítica | O Rei Do Médio Grave


★★★

Ano passado, quando JLZ e GG lançaram Medio Grave a aclamação geral foi automática e absolutamente necessária. Ainda havia de ser feito um trabalho sério, interessante, amplo e ao mesmo tempo divertido, sobre o piseiro, a arrochadeira e pequenas variações de gêneros das festas interioranas nordestinas. Claro que isso não significa que os álbuns desses artistas por si só não falam muito, mas até então, eu imaginava que era evidente que a cultura dessas músicas é a da playlist de paredões e não a de escuta de álbuns.

Até que, porventura, viralizam algumas músicas e vídeos do Filho Do Piseiro nas redes sociais, algo que é fenomenal de primeira para qualquer um que teve contato. O que não se imagina, pelo menos para os mais inocentes como eu, é que o seu mais recente álbum, O Rei Do Médio Grave, é um excelente exemplo de piseiro perfeitamente bem realizado e com toques de humor e qualidade sonora exemplares.

A começar pelo humor, todas as músicas são ironias e retratos bem humorados de situações banais do dia a dia. Que vão desde um embate com o pai por não querer estudar e viver da farra (“No Tempo Dele Nao Havia Paredão”), uma ida bem safada à praia (“After Do Vaqueiro”) até mentir pra pessoa amada que ama ela e ser perdoado por isso (“3 Defeitos”). Em todos os casos, o senso de humor não é uma atitude meramente temática — não é só porque as letras são engraçadas — mas porque existe uma forma muito particular do FDP (como ele mesmo gosta de abreviar seu nome) cantar, algo que o ajudou a viralizar bastante. Por vezes, ele sequer canta as palavras completas, apenas as entona, e é essencial para essa forma quase caótica que possuem suas músicas.

Em termos instrumentais, o álbum varia entre dois espectros muito inusitados: há uma limpeza na produção muito engraçada para músicas de piseiro no geral, parece que a mixagem foi, de fato, uma etapa muito importante da realização dessas músicas. Isso contrasta diretamente com o grande rei do piseiro: o médio grave, que realmente “bate” no fundo da sua orelha independente do sistema de som ou fone de ouvido que se utilize para escutar esse disco. Músicas como “Liga O Paredao”, “Arruma a Mala Ae” e “Cala A Boca Piranha” são destaques excepcionais, combinado com a forma inusitada de interpretação das músicas, se transforma automaticamente em uma das maiores festas que você já foi.

As técnicas e escolhas inusitadas não param por aí, visto que em músicas como “Em Cima Do Jetski”, “Socadao” e a já citada “Cala A Boca Piranha”, por exemplo, há um uso de samples que é próprio do funk. Mas com as interferências constantes do médio grave, todas essas se transformam em grandes hits do paredão, que apesar de claros, óbvios e divertidos, não são nem de longe parecidos com os outros virais do gênero que atingiram alcance nacional, como João Gomes. Isso porque a própria atitude exagerada pode passar como desnecessária ou mesmo boba para muitos. A realidade é que é uma música feita com um ímpeto e honestidade que a captura industrial nunca vai conseguir replicar.

Selo: Elite Music
Formato: LP
Gênero: Música Brasileira / Piseiro, Arrochadeira

Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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