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Antes de comentar o que achei do álbum, acho importante dar um contexto, e que você, leitor, pode se aprofundar melhor num artigo escrito por João Vitor, nosso redator de música do leste e sudeste asiatico clicando aqui. Basicamente, o k-pop hoje vive uma crise que passa diretamente pelas estratégias da HYBE, impulsionadas pelo sucesso global do BTS. Se antes o gênero buscava uma expansão mais plural em termos de não escolher apenas um mercado, com forte presença em países como China e Japão, através de uma relação complexa com os dois países por motivos políticos e históricos, o foco quase exclusivo nos Estados Unidos redesenhou as prioridades da indústria, reduzindo sua presença em outros territórios, homogeneizando assim o público e o estilo usado para atingi-los, criando um novo perfil de consumidor, menos interessado nas dinâmicas tradicionais do sistema trainee e mais atraído por produtos que se afastam das gerações anteriores do k-pop.
Como consequência, os lançamentos passaram a seguir fórmulas cada vez mais previsíveis, e a repetição acabou desgastando o interesse do público, o que se reflete diretamente na queda das vendas. Nesse ciclo, menos consumo gera menos investimento (a indústria do k-pop é movida por mercenários que não medem esforços para obter dinheiro e poder) que por sua vez resulta em produções cada vez mais esvaziadas de apelo.
Agora o BTS volta, ciente de que não deveria ter sustentado essas mudanças. Ciente também de que precisa arranjar um apelo e, de alguma forma, marcar presença nesse marasmo que causaram no k-pop, por isso, ARIRANG contou com um marketing voraz, coisa que pessoalmente eu nunca vi na minha vida, nem mesmo no lançamento do último álbum da Taylor Swift. Não é de se espantar que o grupo realmente buscou trabalhar melhor aqui, e isso pressupõe as boas ideias que carregam o álbum e os nomes envolvidos na produção (destaque para as mãos de El Guincho em “Hooligan”). A primeira coisa que chama atenção é o fato de que, agora, existe uma unidade no som deles, ou seja, algo que se aproxima de uma estrutura de coesão muito típica na música pop, mas que, se tratando do BTS, nunca fora desenvolvida. Seus trabalhos eram divididos entre tentar explorar as consequências coming-of-age e adentrar terrenos de autoajuda, como se quisessem impor à música – ao k-pop, e isso eu acho engraçado – uma utilidade além da conta. Por isso, era comum esbarrar em músicas de teor psicológico, mas numa superficialidade tosca.
ARIRANG não tem isso. É o melhor álbum deles porque tem consciência. Não uma consciência fajuta, uma ida a terrenos de temáticas pinceladas como se fossem significantes. O álbum é consciente justamente por denotar que não precisa de mirabolâncias internas, ainda que seja extremamente expansivo. Diria que é o mais perto que o BTS chegou da música pop que sempre tentou atingir, soando aliado ao pop americano em muitos sentidos, principalmente na criação de melodias vocais em momentos como em “Aliens”, com versos de rap construídos em rimas que variam de acordo com a tonalidade vocal de cada um dos integrantes, mesmo que esses vocais não sejam bons – o BTS segue, após anos, com um vocal desastroso –, mas pelo menos aqui eles não estão cantando sobre os merambulos mentais. É um pop rap cheio de melismas (algo que o pop americano explorou com a união de divas pop com nomes do rap pós-anos 90), som agressivo e repetições que combinam samples e letras modestas.
Musicalmente, ARIRANG apenas replica tendências, assim como o k-pop sempre fez, mas de um jeito menos preso a uma única fórmula. Por isso, há momentos interessantes como “Hooligan” e “FYA” no início, com batidas eletrônicas que contornam tudo o que tem sido feito no k-pop pelos grupos masculinos, especialmente na obsessão deles por trap/rage. De alguma forma – acredito que seja pelo contraste entre baterias intensas e vocais mais afáveis, efeitos que beiram um experimentalismo de gênero através da amostragem e divisão entre intensidade, do som e calmaria – este lançamento remete a OBSESSION, do EXO, lançado em 2019. E é um pouco chocante que o BTS esteja fazendo hoje algo que um outro grupo fez há sete anos. E é justamente nesse sentido que ARIRANG perde força. O k-pop é puramente atrelado a características de autoria postiças. Eles podem ter produzido, composto e arranjado, mas ainda assim estarão “imitando algo” que outros artistas nesse cenário também podem imitar, e se você colocar esse álbum em outro grupo, o resultado (vocal, sobretudo) seria perfeito. Pode ser o melhor álbum do BTS, mas ainda assim é um álbum do BTS, e isso diz muito.
Selo: Big Hit, HYBE
Formato: LP
Gênero: Música do Leste e Sudeste Ásiatico / K-pop