Crítica | Cerulean


★★

Das coisas que o novo álbum de Danny L Harle poderia ser, mas não é, está a de ser inofensivo. Digo: ao menos causou algum tipo de discussão interessante no Twitter, afinal, o que foi realmente o hyperpop? Essa questão até faz sentido ser colocada aqui, mas Cerulean está mais preocupado com um período temporal tão anterior e distante do hyperpop que chega a soar inusitado pensarmos que há um pouco de tudo neste pequeno fragmento voltado majoritariamente ao… trance.

O disco, em vários momentos, parece tomar do hyperpop algumas de suas características mais fomentadas por nomes como SOPHIE e Hannah Diamond, é o caso dos vocais que beiram o nightcore e de uma pressão sintética tão rosa e doce quanto o refrigerante Jesus em “Island (da da da)”. O mesmo efeito parece atingir a música seguinte, “Te Re Re”, com kacha, que desta vez impõe um uso mais operístico à sua voz, enquanto Harle guia o som com dedilhados do que parece ser um house retirado de algum iate de milionários em alto-mar — é a música mais nostálgica, pelo aparato estético, e também a que mais superficialmente se fixa no álbum.

O grande feito de Cerulean, porém, está na forma como Danny L Harle acrescenta, em cada uma das músicas, sua prensagem trance e estrutura rave, que parecem se repetir além da conta. É por isso que, apesar das diferenças – e dos sentimentos opostos que provocam, ora nostalgia, ora a sensação de caminharmos por uma ponte oceânica que nos guia ao futuro –, tudo parece terminar, enfim, numa festa com lista limitada, em cenário natural (à beira-mar, por gentileza), frequentada por pessoas brancas e abastadas em algum ponto da Europa. É um tipo de música que, comparada ao apelo pop formulado pelas mãos de Harle no hyperpop, passa longe de ser praticável ou acolhedora, mesmo que pressuponha isso.

Por isso, também, Cerulean é divertido, embora talvez não devesse ser, dado o nível de composição e gravação que Harle mobiliza para nos mostrar o quanto evoluiu tecnicamente, exercendo um peso contrário às noções mais permissivas da eletrônica pós-hyperpop. Há espaço para Caroline Polachek e Dua Lipa aqui. Oklou e PinkPantheress. “Azimuth”, com Polachek, é excelente e consegue expor com nitidez o passo trance que Harle busca o tempo todo. Ao contrário de “Two Hearts”, com Dua Lipa, que se desprende do restante por soar como algo menos Danny do que poderia ser. Ainda assim, Cerulean é algo 100% Danny, para o bem (suas ideias de ritmo, com espasmos de house e bubblegum bass, funcionam certeiramente junto do design de som) e para o mal (pra onde vai tudo isso?).

Selo: XL
Formato: LP
Gênero: Eletrônica / Pop, Trance

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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