Crítica | Quebradeira Pura


★★★

Marcelinho MeteBala realmente é o Marcelinho MeteBala? Não se sabe, uma vez que a escassez de informações sobre esse nome está no mesmo nível de seu talento. No campo de busca do X/Twitter, o que mais aparece são pessoas relatando como foram fisgadas por Quebradeira Pura através dos algoritmos do YouTube, visto até então como um set ou algo do tipo. No Bandcamp, a obra surge no formato de um disco aparentemente regular, com tags que delimitam, em parte, o que está por trás do som: acid, drum and bass e jungle.

Mas Quebradeira Pura vai além, muito além, disso. O disco reúne, num só campo de técnicas – próximas de uma colagem inteiramente sustentada pela roubofonia, semelhante ao que o DJ Ramon Sucesso faz em Sexta dos Crias, porém menos pura no sentido de conter acapellas – uma centena de fragmentos que transitam pelo funk e por sons que circundam a cultura popular online, principalmente em momentos como “Sequência Taradona”, que soa como um pós-nightcore com caixas de hard techno retiradas dos anos 90, quando o gabber emergiu. É um dos momentos essenciais para entender a maneira como Marcelinho MeteBala traça referências que vão além do próprio baile funk e da música eletrônica formal.

“Mochila Nas Costa/Death by Gazamour”, ponto alto no sentido técnico de composição do disco, surge despretensiosamente com um som extraído das profundezas do Pixabay. A segunda metade da música, porém, derrete o tamborzão do RJ em um nível de precisão que só se justifica por esse tipo de colagem presente ao longo de todo o trabalho, dando a impressão de mesclar sete – ou mais, impossível de calcular – faixas/beats diferentes ao mesmo tempo, em um sentimento que evoca nostalgia e agonia simultaneamente.

Na sequência, “Gostosa Pkrl” acentua esse mesmo modelo de amostragem: é mais estourada no contexto dos beats ácidos e, sonoramente, mais alta também, não sei se por escolha de design de som, mas chama atenção por forçar uma nova dimensão na forma como a música invade os ouvidos. É um dos grandes momentos, pura euforia e caos. Diferente da faixa que encerra o disco, “Trem Bala/Olhei Gostei”, que retorna ao quase pós-nightcore – desta vez mais atmosférico e tomado pelo jungle-bass clássico –, o que também desperta um sentimento ambíguo em relação ao funk das acapellas. Ainda assim, é surpreendente como consegue combinar esses elementos em uma harmonia que talvez eu nem soubesse ser possível.

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Experimental / Eletrônica

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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