
★★★★
Ele está de volta, agora com Sexta dos Crias 2.0, e quem esperava encontrar algo próximo daquele beat bolha de dois anos atrás, se enganou. O novo disco do DJ segue pelo mesmo caminho da obra de 2023, exceto pelo fato de ir além do que ele havia demarcado lá. É bem mais expansivo, dialoga diretamente com o que o funk se tornou desde então e funciona como um resumo perfeito da febre do funk carioca, dos virais e dos beats que se popularizaram no TikTok. Por isso, não é difícil pensar que se o funk do RJ atual tivesse o poder de se transformar em um único disco, ele viraria este aqui na mesma hora. E, por mais que pareça fácil encontrar sons acessíveis, o que se ouve aqui é um nível absurdo de design de som (e como ele dá vida a faixas ininterruptas e que todos conhecem) e amostragem (o uso perspicaz de beats e samples também conhecidos), algo que Ramon sabe fazer como ninguém.
A música de Ramon depende de aspectos composicionais que fogem de formalidades usuais, seja no campo do funk como eletrônica, seja no da música eletrônica formal. Passa longe de ser apenas remix ou reimaginações. Ele trabalha com a robofonia de um jeito que recorre ao que ouve e, naturalmente, tende a transformar com sua assinatura: a distorção. Aqui, ele assume essa forma de criar já no próprio título dos dois lados do disco: o primeiro é “Rompendo o Espaço-Tempo” e o segundo, “Distorcendo o Universo”. Sua compreensão de romper e de distorcer é quase literal. Na primeira parte, as percussões do tamborzão clássico são afinadas, enquanto acapellas – em estrutura de repetição que viajam pelas variações de um estilo próximo do beat serie gold – são colocadas por cima do som como se criassem, a cada drop, um efeito reverso. Ramon faz questão de criar transições sobre transições; é quase impossível saber onde cada trecho vai chegar. Há instantes, entre “Bate/Bate” e “Tapa/Tapa”, em que algumas acapellas podem ser reconhecidas, como “Toma Porradeiro de Leve”, mesclada com uma espécie de sanfoninha de aquecimento que se repete até que outra acapella – que aqui se comporta como beat – surja por cima, seja interrompida por uma distorção e por rewinds que introduzem a voz marcante do maior MC do Brasil: o GW.
A estrutura segue pelo mesmo caminho na segunda parte, com o acréscimo de fragmentos, acapellas e trechos ainda mais virais, distorcidos, prensados e recompostos sob a lente do DJ. A primeira e mais reconhecível é o “pique na onda maluca”, popular no baile da Nova Holanda e que viralizou com o trecho “olha a cor dessa água”, agora com outra acapella sobreposta e o beat mais agudo, modificado e estendido por uma estrutura ritmada que desemboca em uma das acapellas mais populares de MC Rodrigo do CN, “Meu Carro Não Tem Porta Luva”. A partir daí, DJ Ramon nem precisa fazer esforço para imprimir sua cara em algumas das maiores peças do funk da década de 2020 até agora. Sua transmutação, ou transformação, passa por um método que referencia esses já clássicos, é um passeio pelo melhor do que o funk do RJ pode propor.
É por isso que ele se afasta um pouco do beat bolha. Trabalha com outros beats que viraram marcas do Rio de Janeiro e de outros estados, aplicando sua massa modeladora dos 150 BPMs, além de distorções e reverses que funcionam como transições infinitas. É o mesmo funk que se ouve nas ruas e nos bailes, mas associado às características de um único DJ, com as marcas dele e de mais ninguém. Entender essa lógica é compreender o quão habilidoso DJ Ramon Sucesso é, e o quanto seu trabalho consegue neste disco em específico soar diverso e representar uma cena inteira. Pessoalmente, não conheço outro nome que consiga fazer o mesmo. Não há ninguém disposto e preparado a pegar verdadeiros signos em forma de som e transformá-los como parte de um repertório cheio de texturas e técnicas que não há em canto algum. Ter tudo isso em mente é suficiente para perceber que o apelo em torno de Sexta dos Crias 2.0 é muito maior do que o produto final pode, à primeira vista, pressupor.
Compre: Bandcamp
Selo: Lugar Alto
Formato: LP
Gênero: Funk / Funk 150 BPM