Crítica | The Mountain



É muito legal gostar de Gorillaz quando se tem 16 anos. Eu mesmo fiz parte desse recorte, e com muito orgulho. Apesar disso, é difícil ouvir The Mountain e ver que aqui existe algum tipo de ambição narrativa que o som – e a composição lírica como um todo – parecem falhar em entregar, pois se preocupam com a forma geral que esse recado será dado. No caso, o luto. Concordamos que é um assunto complexo, né? E por mais que não exista uma fórmula de como tratar o luto, é nítido que jamais deve ser feito como eles fazem aqui, ante uma bagunça e uma falta de direção mordaz.

É bem preguiçoso pra falar a verdade. Há maneirismos bem típicos como a chave que vira na cabeça do autor quando, num súbito estado de descrença, ele viaja e descobre que existe um mundo inteiro além da sua vida, talvez daí surja o ponto mais interessante de tratar a morte: pelo seu eu antes dessa viagem. O que, nitidamente, não acontece aqui. O luto é disperso a ponto de não se saber onde ele começa e onde termina – na real, dá sim pra saber, pois isso acontece o tempo todo que parece que estamos girando em círculos.

Acredito que seja muito fácil para o Gorillaz apresentar esses tipos de presepadas, afinal os fãs amam, a crítica americana adora a forma como eles se comunicam e se dão importância numa espécie de pós-excelência artística de natureza, que sempre irão engolir coisas como essa. Tem que ser muito americano mesmo pra se impressionar com o vai e vem desmedido do sitar, inclusive e instantes em que o instrumento nitidamente soa deslocado.

Pra piorar, dá uma baita preguiça quando vemos que The Mountain ultrapassa 1 hora de duração. É torturante, por isso busquei não ficar pensando em como aquilo que eu estava ouvindo soava tão brega quanto a discografia do Florence + the Machine e o foco que esses projetos do tipo dão para temas que ultrapassam a referência e se tornam uma espécie de linguagem extremamente comunicável, fácil e presa ao mais do mesmo. Pra não ser injusto, eu gostei de como, apesar do uso dos elementos, ainda assim houve uma vontade, um desejo, de harmonizar essa viagem – a montanha – com a própria lore do Gorillaz, já que é algo que sabem fazer como ninguém.

Selo: Kong
Formato: LP
Gênero: Pop / Rock

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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