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Há, porém, algumas exceções. Como MC Freitas ZS, que não só subverte a ordem DJ-MC, como faz questão de misturar ambos na intenção de fazê-los ser apenas um, com diferentes abordagens num só disco. De forma quase parecida, MC ZKW lança Só pra Pá, um disco recheado de participações de DJs que dão vida às suas composições, que atravessam diferentes características do funk paulista. Com a diferença de que ZKW avança por terreno que, de certa forma, demarcam o mainstream, mesmo que o sucesso comercial e a régua dos streams incontáveis não se apliquem aqui.
E, na verdade, essa é uma das graças dos álbuns de MCs: eles pendem mais para uma variedade de estilos, principalmente quando tornam a trazer essa relação com o que faz sucesso entre o público. Enquanto alguns DJs se fixam em ideias de ritmo e vertentes que poucas vezes se cruzam – é o caso da rivalidade entre ritmada e bruxaria –, os MCs não medem esforços para abordar tais lados, como também partem rumo a outros sons que vão além dessa fixação que, em alguns casos, se torna limitante.
“Parafal de Bandoleira”, por exemplo, pode soar como tudo, menos funk. Mas é, em sua natureza, funk. Com Desouza, Poundshop e produção central de xavisphone, a faixa faz uso de percussão – caixas mais separadas em tempo e ritmo – enquanto um beat “ah-ah-ah”, viral do SoundCloud na cena do RJ, ocupa o pano de fundo. O resultado é uma versão mais contida das investidas recentes de MC ZKW no bouyon, gênero cuja origem está relacionada a vários estilos caribenhos, como fez em “BOUYON DE QUEBRADA”, faixa em parceria com DJ TALIBÃ e Poundshop. Na música daqui, os versos em francês de Desouza, que também explora o bouyon, tornam a faixa ainda mais interativa com a noção de latinidades e africanidades que vigora na música hoje.
Em outros momentos, como “Automotivo Brutalizado”, Só pra Pá parece permanecer fiel ao comum do funk nos últimos anos, ou seja, um automotivo sem grandes esforços para soar algo além disso. Apesar de que ainda há muita riqueza, principalmente no trabalho com a percussão (“Sem Sentimento”) ao longo do álbum. Isso tudo, num momento em que se encontra o funk, é extremamente positivo. Há que se temer se o bouyon se tornará também uma tendência, como já está sendo o funkhall. Se for, MC ZKW merece os créditos, pois o que ele faz aqui é o completo oposto do que MCs e DJs andam fazendo: repetindo, exaustivamente, as mesmas ideias, as mesmas tendências e por aí vai.
Selo: Authentic Records
Formato: LP
Gênero: Funk