Crítica | SadSexySillySongs


★★

Letrux sempre vai ser um assunto interessante de ver as pessoas comentando. Há quem a ame na mesma intensidade de quem a odeia. E faz parte. Particularmente, só gosto – ou gostava – de um único disco dela, que é Letrux Como Mulher Girafa, de 2023. Letrux Em Noite de Climão e Letrux Aos Prantos são verdadeiros “tanto faz”.

SadSexySillySongs tem mais coisas interessantes do que pode pressupor. O disco é construído com uma certa homogeneidade de letras em inglês, o que não só funciona muito bem, como também, no meu ponto de vista, trata de um dos maiores problemas da carreira de Letrux. Sua forma de escrever é muito dura, cheia de pausas. Parece que, às vezes, ela não canta, e sim declama algumas de suas letras como se estivesse lendo um papel enquanto tenta cantar (não chega a ser palavra falada), mas não canta. Os temas, em sua maioria, percorrem crônicas de paixão e do cotidiano. Coisas bobas que incomodam muitos, não é o meu caso.

É, para algumas pessoas, de uma esquisitice sem tamanho. E o inglês, num contexto fonético, acaba dando a impressão de ser tão cantável quanto tudo – o mesmo efeito tem o português para quem fala inglês –, e esse jogo de lirismo que ela faz funciona perfeitamente. Fora isso, os instrumentais aqui servem como pano de fundo perfeito para a maneira como todos esses elementos se convergem. “It's like Kurt Cobain sings” é o melhor exemplo, com os acordes de violão e o tom acústico da faixa, como um todo, acompanhando a lentidão com que Letrux canta.

Mesmo que já brincasse tanto com o inglês, os instantes acústicos aqui, o trabalho com cordas e a própria atmosfera encanada pelo sophisti-pop – que Ana Frango Elétrico deu nova cara para o pop brasileiro nesta década de 2020 – acabam gerando uma combinação que genuinamente interessante. São vários os destaques, incluindo as faixas em português, como “Caligrafia tarada”, que é de um humor sensacional, uma situação tão única que é impossível não se ver preso pela bobagem: “Me deixa ver a curva do seu G / Quero sacar sua mão com uma caneta / A pressão do dedo me faz derreter / Esse teu A passando em mim como um cometa”, canta ela em um dos melhores versos do álbum. É pura banalidade, assim como o tesão deve ser.

Selo: Coala Records
Formato: LP
Gênero: Pós-MPB / Música Brasileira
Matheus José

Graduando em Letras, 25 anos. É editor do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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