Editorial | Queremos falar sobre o que aconteceu


A publicação da série “Cartão de Visita” dedicada ao DJ Arana foi um erro. Não porque cobrir o artista seja errado em si, mas porque o post ignorou um contexto que não pode ser ignorado: denúncias públicas de transfobia, machismo e homofobia, sem qualquer tentativa de retratação da parte dele. Isso contraria diretamente o que orienta o site desde o começo.

O AT nasceu como um projeto feito por pessoas LGBTQIAPN+, não brancas e de origens diversas. Dar visibilidade a artistas e comunidades historicamente deixadas de lado pelo jornalismo musical não é um detalhe da nossa proposta, é o centro dela. Ao longo dos anos isso se traduziu em cobertura do funk periférico, da eletrônica experimental, de artistas que a imprensa grande ignora, Para além das críticas que desenvolvemos diariamente no site, também utilizamos o formato de entrevista para entender a subjetividade do artista por trás da obra que avaliamos sob nossa ótica editorial. Através desse e de outros conteúdos, buscamos constantemente dar destaque à comunidade LGBTQIAPN+ na cena. Erramos quando deixamos essa bússola de lado.

Vale deixar claro como o AT entende a crítica. Para a gente, crítica não é sentença, é continuidade. Um texto sobre um disco é parte da vida daquele disco, um gesto que prolonga a obra e a coloca em diálogo com quem ouve e com o momento em que ela existe. E nenhum texto nasce do zero, todo crítico escreve a partir de um caldo cultural e formacional, de referências, debates e tradições que moldam o que ele ouve e como fala sobre isso. A autoria é individual, mas a crítica como forma nunca é só de quem assina. Os textos publicados aqui são responsabilidade de cada redator, e isso vale também para as matérias especiais, como o "Cartão de Visita". Nossos editoriais coletivos, a exemplo das listas de fim de ano, são assinados pelo Aquele Tuim como um todo. Esse princípio se mantém. O que muda é que matérias especiais, por terem maior visibilidade e caráter editorial mais marcado, vão passar por um grau mais alto de editoração, tanto na escolha do tema quanto em como e sobre quem se fala. O caso do DJ Arana deixou claro que esse cuidado precisava existir de forma mais explícita

Depois da repercussão, a gente se reuniu. A conversa foi longa e honesta. Saímos dela com algumas definições.

A primeira: nos textos sobre artistas com denúncias públicas de crimes ou condutas que ferem nossos princípios, o AT vai incluir um disclaimer explícito, informando o fato e deixando claro o nosso não apoio. Esse aviso não substitui o texto crítico, mas garante que o leitor tenha o contexto que precisa para tensionar tanto o artista quanto o que cada crítico escreve sobre ele.

A segunda: internamente, vamos incentivar ativamente que nossos críticos mencionem e tensionem esse histórico nos próprios textos. A crítica responsável não apaga contradições, ela as coloca em evidência.

A terceira: vamos criar um espaço do leitor no site. A gente acredita que crítica musical é conversa, não monólogo, e esse espaço é uma forma de tornar isso concreto. A ideia não é apenas publicar cartas ou opiniões isoladas, mas construir um lugar de discussão coletiva, onde leitores possam reagir, discordar e contribuir para o debate que a gente tenta abrir em cada texto.

A quarta: vamos reforçar a divulgação de artistas de comunidades historicamente marginalizadas. Para isso, além do e-mail que já existe, vamos criar um formulário dedicado exclusivamente a indicações. O objetivo é que esse canal seja mais acessível e que as submissões não se percam no meio de outros contatos. Quem faz música e quer que a gente ouça vai ter um caminho direto pra isso.

Sabemos que quem se manifestou nos últimos dias não estava fazendo hate. Parte desse incômodo veio de dentro da própria cena que a gente diz valorizar, e isso importa. Assumimos o erro, não como gesto retórico, mas como ponto de partida para o que vem agora.

O aquele tuim continua sendo um projeto voluntário, imperfeito e em construção. Mas é um projeto que leva a sério o que assina.

Essa carta não é um ponto final, mas o começa de uma conversa mais franca. A gente quer que ela continue, com quem lê, com quem faz música e com quem discorda da gente, seja nos comentários, seja na DM, seja nos espaços de diálogo que pretendemos promover (como as cartas do leitor). O compromisso com o diálogo é parte do que nos define, e não faz sentido falar em crítica responsável sem estar disposto a ser criticado também. O que a gente espera construir a partir daqui é um espaço aberto a receber e produzir crítica séria, ética, responsável, engajada e que não recaia no personalismo, que debata obras, contexto e posições, não apenas pessoas isoladas.

Aquele Tuim

experimente música.

Postagem Anterior Próxima Postagem