Crítica | Nineteen Seventy Seven


★★★

Fotos em preto e branco. Os Trapalhões, um frame da novela “A Escrava Isaura”, Chacrinha e Zezé Motta, Caetano Veloso e Maria Bethânia, Clara Nunes, um frame do filme “Lúcio Flávio – O Passageiro da Agonia”. Assim são as primeiras imagens do longa-metragem que representou o Brasil no Oscar 2026, O Agente Secreto. Todas essas imagens apontam em que tempo a trama se passa: o ano de 1977. Neste ano, enquanto essas imagens marcaram época, em São Paulo foi gravado um disco que só seria lançado em 2026.

Para a comemoração dos 50 anos do Grupo Um, a banda surgida do coletivo paulista de Hermeto Pascoal, o selo Far Out Records trouxe à luz um disco de inéditas gravado em 1977 que apresenta o cerne vanguardista do grupo. Da vontade dos membros de apresentar suas técnicas com os estudos de música erudita, misturando com a polirritmia afro-brasileira e sintetizadores analógicos, o disco é um registro das novas ideias que o coletivo trouxe para a música instrumental brasileira nos anos setenta.

Diferente da primeira gravação do grupo, Starting Point, que só foi lançada em 2023, o novo registro apresenta o grupo mais inclinado às experimentações eletroacústicas e de ritmos brasileiros. Foi em 77 que o grupo trouxe pela primeira vez a incorporação do sintetizador (um ARP 2600) no seu processo de composição, por influência do tecladista Lelo Nazário e seu gosto pela música eletroacústica e musique concrète. O disco conta com a primeira gravação da música “Mobile/Stabile”, uma das primeiras no país a unir música instrumental acústica e eletrônica. Diferente da versão que viria ao mundo no disco de 81, a versão de 77 constrói uma atmosfera a partir de notas longas de sopro e piano elétrico junto com texturas da percussão de Carlinhos Gonçalves até explodir em caos com os músicos improvisando sobre a gravação de uma base eletrônica. Essa peça seria censurada num festival de jazz no ano seguinte, com a organização desligando os equipamentos no meio da performance do grupo.

Essa construção atmosférica, criando uma paisagem sonora onde as composições podem habitar, é um dos pontos mais interessantes do trabalho. O começo de “Festa dos Pássaros” mostra bem esse aspecto, com os sopros improvisando melodias que remetem a aves enquanto a percussão tira qualquer dúvida de que o chão sob essas aves é brasileiro. A base de ritmos brasileiros também é bem presente em “Cortejo dos Reis Negros – Version 2” que se constrói por cima de percussão de maracatu, começando com improvisações até chegar no tema.

Existe um entusiasmo jovem muito divertido nessas gravações. Uma urgência em trazer todos esses interesses (a técnica, os sintetizadores, a polirritmia da música popular) de uma só vez para pintar sua visão para a música instrumental de vanguarda em um país com tanta diversidade cultural e sob um regime militar. É um arquivo interessante para sabermos os sons que estavam sendo experimentados no Brasil, mas que não tiveram oportunidade de serem publicados. Histórias que, agora, podem ser ouvidas.

Selo: Far Out Records
Formato: LP
Gênero: Jazz / Fusion, Avant-Garde Jazz

gambito de rafinha

Formade em Comunicação Social. Tem uma instazine chamada "Gambine" em que documenta a vida cultural em Campinas, SP. No Aquele Tuim integra a curadoria de música brasileira.

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