
★★★★
La Vida Era Más Corta é um álbum sobre memória, em que Milo J mergulha na música folclórica argentina e em outros gêneros latinos. Tal feito apenas aos 18 anos, consagra Milo como um dos nomes mais promissores dessa nova geração. Esse é o terceiro álbum lançado pelo artista, seus trabalhos anteriores predominavam canções de trap e já havia o colocado como um dos destaques mais interessantes da nova levada de artistas que ascendiam na Argentina, conseguindo reconhecimento no cenário da música latina.
Ele prometeu que em seu terceiro projeto mesclaria elementos sonoros nacionais com uma estética moderna, e que a ancestralidade e a música folclórica dos povos originários seriam o ponto de partida para a construção do universo musical de La Vida Era Más Corta. Milo cumpre todo esse processo com maestria, junto com Santiago Alvarado e Tatool, que também assina a produção do disco incorporando ao longo das faixas cantos indígenas, gêneros latinos como a chacarera (gênero tradicional argentino) e a bossa nova, além de samples de músicas populares latinas. O disco ainda se divide em duas partes: o disco 1, que é a parte principal com 11 faixas, e o disco 2, que conta com 4 faixas e todas são parcerias.
O álbum se inicia com “Bajo De La Piel”, lançada como primeiro single, que dita o tom do disco e funciona como faixa principal. A canção é uma chacarera e utiliza instrumentos como o violino, o bandoneon, o violão e a percussão. A faixa traz o sample de um canto indígena na língua Arawak do povo Chané, historicamente tradicionais do leste da Bolívia, norte da Argentina, Paraguai e partes do Brasil. “Bajo De La Piel” fala sobre as marcas invisíveis deixadas pelo tempo, traumas geracionais, e a busca pela identidade, no contexto do apagamento cultural que os povos originários latino americanos sofrem desde a colonização até os dias atuais: “Tenho algumas tatuagens em baixo da minha pele, que não cicatrizaram e outro ser reencarnou”.
“Ñino” é a faixa mais emotiva e vulnerável do álbum. Nela, Milo canta sobre uma carta em que um pai após falecer escreve para seu filho, que está em situação de marginalidade e sente a culpa do mundo em suas costas, mas também serve de analogia sobre a passagem da infância para a vida adulta e todo os medos e nostalgia em torno disso.
O disco contém ótimas composições, em suas letras que o tempo todo Milo faz um paralelo entre passado e presente, seja cantando sobre se reerguer diante aos traumas do passado ou sobre sua vida cotidiana. As transições entre as faixas são mais um ponto alto do disco. “Solidifican12” se inicia com um reprise da faixa anterior, a bossa nova “Ama De Mi Sol”, em um ritmo mais acelerado. “Llora Llora” tem o melhor feat dessa primeira parte do álbum, a parceria Akriila, artista chilena que vem ganhando relevância na cena de neoperreo e alternativo, e renderam uma faixa linda e emotiva, sobre estar longe de casa e sobre saudade.
O álbum não perde seu ritmo e presenteia seu ouvinte o tempo todo, em “Recordé” o presente tem um sabor a mais principalmente para nós brasileiros, pois a faixa se inicia com o sample do ponto entoado no Catimbó e na Umbanda “Meu Labor das Matas” (2022), do grupo musical e associação cultural brasileira Morro da Crioula, que está creditado na música. Já em “Cuando El Agua Hierviendo” Milo utiliza o sample de “Tres Golpes” (2002) da consagrada cantora colombiana de música afro-latina e ritmos tradicionais Totó La Momposina.
“La Vida Era Más Corta”, faixa que leva o nome do álbum, encerra o disco 1 referenciando a primeira faixa, se aprofundando ainda mais e trazendo o desfecho infeliz do processo de apagamento cultural dos povos originários: “Y morimos con pieles blancas”.
A parte 2 do disco inicia-se com “Radamel”, em que Milo dá lugar ao jovem cantor e violonista Radamel, que é solista na faixa. Seguido por “El Invisible” e “Luciérnagas”, colaborações com os veteranos Cuti y Roberto Carabajal e Silvio Rodríguez. Já a faixa final é “Jangadero”, parceria com Mercedes Sosa, uma das maiores referências da música argentina que faleceu em 2009. Milo coletou uma gravação que Mercedes fez ainda em vida da música “Canción del Jangadero” de Jaime Dávalos, lançada em 1960, unindo-se à voz dela em um emocionante dueto, que dá ainda mais profundidade à canção.
O álbum prova ser fruto de um trabalho minucioso de pesquisa etnomusicológica, que ao se descrever como um disco que mergulha na música e na história folclórica argentina faz isso muito além de só na estética. Não é cedo para dizer que La Vida Era Más Corta é um clássico.
Selo: Sony Music Latin
Formato: LP
Gênero: Música Latina/Hispanófona, Chacarera