Crítica | Caralha Safamix Madness


★★★

O funk brasileiro opera em uma temporalidade própria, quase frenética, movimentando-se de uma forma tão singular que não há paralelo em outros gêneros musicais quando se trata da rapidez com que encontra e esgota novas fases. Enquanto a superfície mainstream do gênero parece caminhar para um lado mais voltado a simbiose com o rock, em contra partida existe um ecossistema pulsante e invisível que sustenta a verdadeira vanguarda. É nesse submundo, que se estende do SoundCloud a fóruns e sites de música mais desconhecidos, que a cada mês surgem produtores anônimos lançando os trabalhos mais criativos e interessantes do gênero. Dentro dessa safra interminável de talentos que operam à margem do jogo da indústria, o DJ Malamé Amarelo desponta, incontestavelmente, como um dos nomes mais vitais e criativos.

A sua obra resgata e revive uma das estéticas mais raízes do funk, que é a cultura do mashup, mas rotular o seu trabalho apenas sob essa categoria entra em combate direto com a própria mente criativa do DJ. A sua consistência autoral é indiscutível e se faz muito visível através da arquitetura de elementos originais que emergem durante toda a produção do álbum. A excursão sonora de Malamé é elástica e ambiciosa, transitando com naturalidade desde do beat bolha até a crueza e a agressividade das raízes do funk mandelão, tudo isso entrelaçado a elementos que gritam pertencer à música eletrônica. O funk, por sua própria natureza de pista, já é um gênero que existe numa linha muito tênue com a eletrônica, mas aqui Malamé demonstra uma maestria em condicionar e manipular essa tensão. Ele guia o ouvinte por texturas densas, utilizando técnicas como a liquefação do som até desaguar em acapellas clássicas e bem conhecidas do gênero, criando um ambiente sonoro altamente imersivo.

No entanto, mesmo com todo esse brilhantismo técnico, há um ponto de atrito na construção estética do álbum que merece ser questionado. A repetição é, por excelência, o pilar que constrói o transe e a identidade do funk, mas o uso excessivamente reiterado de certos elementos ao longo das faixas acaba gerando um paradoxo. Considerando que Malamé demonstra uma facilidade absurda em conduzir, distorcer e subverter a sonoridade, por que não mitigar um pouco dessa repetição para dar ainda mais dinâmica e fôlego à sua criação? É uma escolha que, de certa forma, acaba amarrando um produtor que tem um potencial de expansão rítmica bem grande.

Ainda assim, relevar essa repetição é fácil quando percebemos que ouvir Caralha Safamix Madness é ser testemunha da construção de pensamentos totalmente fora de órbita, reunindo referências de universos musicais extremamente distantes e, na teoria, incompatíveis. O maior e mais cínico exemplo dessa alquimia é a faixa “Ela Me Viu VS Xerequinha”, que se apropria de “Am I Wrong”, da dupla pop Nico & Vinz. É exatamente nesse ponto que o estilo mashup toma o seu corpo mais robusto e impressionante, pois a montagem de Malamé tem a capacidade de criar no ouvinte a falsa sensação de que a música original é excelente. A verdade é que ela não é; basta escutar a versão original logo após o álbum para chegar à conclusão óbvia de que a descontextualização salvou a faixa de sua própria mediocridade.

Toda essa colagem de referências nos leva a observar um fenômeno cultural muito específico que estamos vivendo hoje. Quando viramos para a década de 2020, fomos inundados por uma grande leva de artistas pop trazendo de volta a sonoridade dos anos 80 e 90, resultando numa repopularização fortíssima do house e do disco. Porém, por mais forte que tenha sido esse movimento, ele parece não ter o mesmo peso visceral e a mesma onipresença que o atual “revival” dos anos 2000, uma estética que vem ditando as regras de forma brutal desde o ano passado. O mais fascinante ao analisar esse cenário é perceber que os melhores e mais autênticos trabalhos nessa pegada não estão no topo das paradas globais, mas sim escondidos nas trincheiras do funk. Em questão de menos de quatro meses, o submundo do funk entregou mais álbuns acertando em cheio nessa proposta e capturando o espírito daquela época do que a indústria pop mainstream conseguiu fazer em dois anos. O sentido dessa constatação não é criar uma disputa infantil entre gêneros, mas funciona como um desabafo sincero e frustrante de que, devido à lógica engessada do mercado, dificilmente veremos trabalhos de tanta qualidade como de Malamé e Marcelinho Mete Bala sendo devidamente circulados pelas pessoas e celebrados pelas grandes mídias.

Talvez o maior tempero que amarra a genialidade desse álbum seja justamente a nostalgia geracional. É difícil saber exatamente a idade do DJ Malamé, mas dando um tiro no escuro: se ele for alguém que nasceu nos anos 2000 e viveu a sua adolescência e a construção da sua percepção de mundo a partir da década de 2010, absolutamente tudo faz sentido. É exatamente nesse período que a estética e a curadoria dos CDs Summer Eletrohits vigoravam com força total nas mentes dos mais jovens. Isso justifica perfeitamente o uso de faixas tão específicas e cravadas naquela época, e explica o porquê de elas soarem tão vitais e atuais em suas mãos, mesmo sendo, em sua essência, repetições emuladas de uma eletrônica que já conhecemos de trás para frente. Depois de absorver esse álbum, o que fica é a certeza de que essa obra se consolida como a trilha sonora torta e definitiva que eu espero ouvir tocando no volume máximo na próxima festa anos 2000 que eu for.

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Funk / EDM
Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

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