
★★★
Ouvir MR COBRA revela-se uma experiência de desorientação fascinante, pois tentar antecipar os passos de Lucy Liyou com base no seu trabalho anterior é, sem dúvida, a maneira mais ineficaz de se preparar para a magnitude estética deste disco. É impressionante notar como a metamorfose que antes definia as eras da artista agora acontece em escala microscópica, reconfigurando cada segundo de cada faixa com uma vitalidade pulsante que contrasta diretamente com a aura intimista, melosa e reconfortante do seu último álbum, Every Video Without Your Face, Every Sound Without Your Name. Se antes éramos guiados por cantos extensos que quase falhavam de tanta delicadeza, aqui somos arrebatados por uma construção deliciosamente desengonçada e improvisada, onde a definição da própria Lucy de que este trabalho opera como uma peça de teatro se consagra como o maior acerto de percepção, justificando brilhantemente um cenário sonoro onde o não fazer sentido se torna a regra mais bela e intrigante.
É justamente nessa aparente ausência de sentido que MR COBRA forja o seu significado mais profundo, subvertendo o que poderia soar como desleixo em um esmero técnico e emocional absoluto, já que a artista estabelece e domina a sua própria lógica criativa em tempo real. Enquanto os registros anteriores utilizavam os fragmentos e o não dito para moldar a narrativa de forma contida, aqui a dinâmica explode em uma direção diametralmente oposta: a improvisação impõe o ritmo e os estilhaços sonoros gritam uma sensação de liberdade inebriante, um triunfo artístico formidável ao considerarmos que essa explosão catártica nasce da reescrita de memórias marcadas por uma vulnerabilidade que a própria tinha vergonha de expor. Ao invés de se curvar ao peso do seu passado ou da busca exaustiva por uma validação identitária, Lucy transforma essas vivências em um espetáculo grandioso e libertador, permitindo-se rir de si mesma, arranhar as estruturas musicais e celebrar a sua recusa absoluta em ser silenciada.
Essa genialidade em transmutar emoções densas transparece de forma magistral em faixas que intrigam e hipnotizam, como “Gorija Dearest” e “Constrictor”. A primeira inicia mergulhada em uma melancolia exacerbada e uma aura de tensão palpável que, em menos de um minuto, são subvertidas e destroçadas por inserções de falas de filmes e picos de volume gritantes, enquanto a segunda abraça as marcações rítmicas características da música house de uma maneira que passa a quilômetros de qualquer convenção genérica, sendo ancorada por uma performance vocal de um nível de encantamento simplesmente surreal. É essa mesma densidade envolvente que contextualiza a anedota hilária — e incrivelmente precisa — de uma amiga que afirmou que o disco a faria perder a vontade de ter relações sexuais, pois a atmosfera do trabalho evoca magistralmente a tensão daquela clássica cena de filme de terror em que o casal está em um momento íntimo, prestes a se tornar a vítima da vez, sugando o ouvinte para dentro desse vórtice cinematográfico de maneira inescapável.
A estrutura maravilhosamente fragmentada do álbum — que costura com maestria o free jazz, a ópera folclórica coreana, a música concreta, o pop dos anos 2000, a comédia, as gravações de texto para fala e as técnicas de performance drag — coroa a experiência como um amontoado de referências que poderia ser catastrófico em mãos menos hábeis, mas que sob a curadoria de Lucy resulta em uma jornada auditiva espetacular. MR COBRA é, na sua essência, um ato vibrante que prova que Lucy Liyou possui a rara e fascinante habilidade de tocar a alma do seu público através dos caminhos mais não convencionais, transformando o caos em uma obra de arte estrondosamente bela e vital.
Compre: Bandcamp
Selo: Orange Milk
Formato: LP
Gênero: Experimental / Música Concreta