Crítica | HADES



Uma coisa que não é novidade na indústria da música são os artistas mantidos por representarem anos, eras ou momentos muito específicos, figuras que até mesmo sofrem com esses "méritos", a exemplo de nomes como Selena Gomez e Demi Lovato. Embora as discografias delas não sejam muito expressivas no quesito qualidade, as duas carregam singles de sucessos extremos que justificam suas existências no mainstream; afinal, mesmo que essas artistas continuem lançando coisas ruins e sem relevância atualmente, elas têm um histórico que banca o fato de simplesmente estarem lá lançando.

Agora, tentar pensar a Melanie Martinez nessa mesma configuração nos obriga a questionar: qual é o seu verdadeiro mérito? Desde o seu debut com Cry Baby em 2015, ela não teve qualquer êxito artístico ou comercial duradouro, sendo que o maior marco da sua carreira foi ter sido a escolha preferida para ser feita de palhaça em “conteúdo” de react naquela época do YouTube — olha que mérito impressionante. Ligando todos esses pontos, a relevância dela continuar lançando seus trabalhos é absolutamente nenhuma, tanto que seu novo álbum, HADES, é a representação mais nítida desse NADA.

A Melanie sempre teve como presença indispensável em seus álbuns faixas com um suposto teor "político", uma insistência cômica, pois essas mensagens acabam sendo bem dispensáveis quando olhamos para a péssima qualidade do material, sempre ofuscado por linhas muito expositivas e críticas extremamente rasas, muitas das suas letras em trabalho antigos e nesse soam mais estilísticas do que verdadeiramente críticas, estamos num período da perda de vários sentido de palavras, e a crítica aqui perde muito o sentido. Isso talvez funcionasse muito bem se eu ou você fôssemos adolescentes menores de 14 anos cujo lema de vida é dizer que "o mundo não me entende" ou que as nossas frustrações fossem unicamente não ter o telefone do momento.

Para pessoas adultas funciona para quem não tem nenhum repertório, nenhum mesmo, ela pode até parecer muito grandiosa. É justamente por isso que é extremamente engraçado olhar para as inspirações dela, pois a própria cita nomes como Fiona Apple e Björk, o que me deixa na dúvida se ela realmente absorveu algo de fato ouvindo os trabalhos dessas artistas; afinal, em nenhum momento passou pela cabeça da Melanie, enquanto "escrevia" as faixas de HADES, que se a Fiona Apple lesse uma única linha desse disco, a chamaria de cafona na mesma hora.

A experiência do álbum já começa de forma bem aterrorizante, pois ouvir a sequência que vai de "GARBAGE" até "POSSESSION" foi uma verdadeira luta. Além de tentar forçar um tom épico meio desconexo, o disco traz letras que me fazem questionar se ainda sou uma pessoa sã, com as suas mensagens de grande "conscientização" já aparecendo aqui, só que embaladas de forma tão cafona e com jogos de palavras que provocam uma síncope de vergonha alheia, enquanto ela faz um rodízio cansativo de versos soltos e sem sentido na tentativa de criar uma possível mensagem entre as faixas.

Assim como os fãs da Taylor Swift se gabam das suas grandes poesias, os fãs da Melanie se gabam da grande contadora de histórias que ela é — o que é uma pura histeria —, mas qual é a ligação narrativa entre tentar chocar com versos como "Violence ablazing, gunshots replacing / The sound of the church bells and hymns / 'White Jesus, save me,' you'll scream like a baby” e, logo na faixa seguida emendar algo como "I don't play nice and you're not listening / I'll be the first one to steal all your bitches / Is this a cult? Take me home / Won't work for you, won't make you no money", que historia ela tá querendo contar?

Poderia entrar em detalhes em todas as faixas, mas vamos nos poupar disso, já que o álbum vai seguir exatamente o formato dos anteriores: um pop com pequenas nuances de bizarro com sonoridades e estéticas infantis, com a diferença agravante de que aqui temos 1 hora e 10 minutos das mesmíssimas composições melódicas usando os mesmos efeitos sem parar. Uma coisa engraçada em meio a isso tudo é que, desde o PORTALS — seu outro álbum bomba —, ela vem com essa história de que a persona Cry Baby morreu, mas isso é mentira, pois não existe uma diferença expressiva ou evolução entre seus álbuns, e para alguém que já começou por baixo, a repetição ininterrupta de fórmulas não é um caminho tão enriquecedor assim.

Outra faixa que chama a atenção é "WHITE BOY WITH A GUN", que tem um título ótimo, diga-se de passagem, mas que me assusta pelo fato de não ter a Maíra Medeiros nos créditos de composição, já que a semelhança lírica com a grandíssima paródia "VAI MALANDRA - SAI EMBUSTE" é gritante e, por incrível que pareça, nessa batalha difícil quem leva a melhor é a paródia. Sobre a faixa em si, ela é bem ruim e sua letra é tão patética que poderíamos até tentar levar o álbum num tom "camp", mas é nítido que não é esse o objetivo dela, o que só me faz questionar por que esse álbum tenta se colocar numa posição de aclamação tão alta quanto o THIS MUSIC MAY CONTAIN HOPE. O novo da Raye é um disco tão ruim quanto e que tem esse mesmo pensamento ilusório de "olha que álbum fenomenal" ou “um álbum de grande valor”, mas que no fundo é só um amontoado de faixas bem genéricas e sem qualquer qualidade; a grande questão é que a obra da Melanie não consegue nem ser genérica de tão ruim que é, e o que difere esse álbum do da Raye é apenas o fato de a Raye não ter cabelo com duas cores.

Por fim, realmente a Melanie Martinez é muito única, pois músicas e álbuns tão ruins do jeito que ela faz, ninguém mais consegue fazer mesmo, e isso é um grande alívio.


Selo: Atlantic
Formato: LP
Gênero: Pop

Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

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