
O escapismo mais natural quando um artista prevê a má recepção de seu trabalho geralmente vem de anúncios derivados de seu estado de emoção. “Eu quis me divertir" anuncia o segundo lado em uma entrevista anterior deste projeto de cunho ambicioso pensado pelas duas mais imponentes forças do hip hop underground. De um certo modo, isso fica até perceptível, seja pelas músicas de anúncio que precederam o lançamento do corpo estendido, como “Earth" e "Leadbelly", ambas pertencentes ao lado de tal artista, Earl Sweatshirt. A última citada, sendo talvez a canção mais bem construída de todo o projeto. Os plug-ins diversos, efeitos sonoros que funcionam quase como uma colagem abstrata – estilo em que ambos os artistas mais prosperam – contrastados em uma cadência semelhante a um trap minimalista e industrial. A dose certa de complexidade e linearidade, com ambos os artistas trocando rimas de veias cômicas e leves bragadoccios. Mas, se por um lado o single era um aperitivo assertivo do que era esperado pelo público, o projeto falha em cumprir o resto do seu propósito.
Com a produção influenciada pelo coletivo nova-iorquino mais focado em cloud rap, os artistas trocam a cadência mais balanceada, conhecida pelo público geral, por uma urgência dispersa e sem foco algum. Mesmo que funcione quase como um organismo vivo, complexo e pulsante em alguns momentos, também se contrasta com a falta de encaixe em ambos os artistas em diversos momentos do disco. Comparado a lados, algo que também não cumpre o seu propósito correto – afinal, foi-se anunciado um álbum colaborativo, não um duplo álbum – a parte mais criativa e em justaposição, mas inconsistente, é a de MIKE. Repleta de vinhetas – o que 99% do álbum soa – que beiram as inacabadas, ainda há um certo tom de criatividade levado pelo coletivo que fica por trás da mesa de produção em certos momentos. Falta consistência, mas há traços de ideias interessantes aqui, como na sequência inicial das quatro primeiras faixas. Destaque para “The Fall", um dos pontos altíssimos do álbum por conta do órgão pulsante que rege a batida, desconexa, mas que encontra no seu sentido essa tal dispersão.
A segunda parte, regida por Earl, segue muito mais segura e linear, mas vê o coletivo perdendo a mão na consistência, principal problema do projeto. Excluindo músicas anteriores ao lançamento, não há um momento que faça o ouvinte se sentir recompensado, apenas levado pela desilusão que o álbum irá engatar em um momento mais posterior, o que não acontece. O rapper soa mesmo que está se divertindo, com linhas divertidas e espertas, como vemos em "Kirkland", quando literalmente se abraça a sua expertise (“I got different flows if you don't feel this one, try this”) ao mesmo tempo em que alterna flows de maneira tão sutil que você se pergunta se há outro emcee na faixa. Mas, mesmo com dois nomes tão poderosos, o principal problema é a falta de foco do coletivo que rege os instrumentais. Em UTILITY, a partir da quinta música, você provavelmente consegue esperar o que virá a seguir: um flow característico do mumble rap – estilo esse que Earl protegeu com forças antes do lançamento do projeto, coincidentemente –, um instrumental que parece que estamos dentro de uma fase de um RPG online – Hot Water simula com precisão isso –, algo tão gélido e monótono em alguns momentos que nos surpreendemos de ouvir Earl atrelado a algo como tal, mesmo sendo uma atmosfera que se diferencia do que ele geralmente se infiltra.
POMPEII // UTILITY, que tinha o intuito de juntar tais potências, soa nem sonicamente interessante, muito menos investido no que se propõe a apresentar. É uma grande e triste pena que esse seja o resultado da tão aguardada colaboração que movimentaria a cena underground de hip hop. Da próxima vez que eu quiser ouvir algo interessante de ambos, farei uma playlist com os highlights de Live Laugh Love e Showbiz!, o que não soa como uma má ideia. Não é um regresso, mas definitivamente é um passo a se questionar não só da dupla de rappers, mas do coletivo SURF GANG que vinha em uma leve crescente.
Selo: 10K / Tan Cressida / Surf Gang Records
Formato: LP
Gênero: Hip hop / Rap