Crítica | balança e paixão


★★★

Em janeiro do ano passado, eu estava navegando pelo Soundcloud quando me deparei com uma playlist lançada como um álbum, chamado 1/11. Despretensiosamente, dei play. E acabei fascinado logo nos primeiros segundos. Não levei tempo pra espalhar a novidade entre amigos, e panfletar um DJ muito interessante que tinha descoberto, até porque no perfil dele estavam sendo lançadas dezenas de faixas, numa quantidade chocante pra qualquer um. Comecei esboçar o texto, mas xavisphone seguia quase como um mistério. Foi então que, na pesquisa pra esse mesmo texto, que me dei conta de quem ele era.

Xavier Herrera é um produtor americano, filho de brasileiros. Ênfase no ‘produtor’, pois foi ele quem produziu “34+35”, “westside” e “main thing” da Ariana Grande. Foi outro choque que eu tive, pois além de achar que o Positions é um dos melhores álbuns da música pop nesta década – opinião impopular –, isso me causou sentimentos ambíguos, de curiosidade. Por que diachos um americano estava fazendo funk? E mais: um funk bom? Logo depois, descobri que ele também produziu “A Dona Aranha” da Luísa Sonza. E aí estava: ele é de casa. Não por produzir uma música medíocre de uma artista brasileira medíocre e passar no teste de resistência, mas por fazê-lo como quem aqui faria. Por fim, o 1/11 hitou na minha bolha e agora temos balança e paixão, formalmente um disco de xavisphone. De funk. No funk.

O álbum coleciona algumas das faixas mais empolgantes do produtor nesta seara, mesmo que não seja algo tão extraordinário – não me interpretem mal, mas a grande maioria das coisas aqui rondam o mandelão há anos, sobretudo essa ritmada mais densa em construção rítmica, com abuso de metais como parte da percussão, e que de uns tempos pra cá vem emprestando texturas e tom minimalista do funk de BH, como a faixa “Melodia dos Meno Progreço”, do RD DA DZ7, DJ KLP OFC, MC ZKW e d.silvestre. balança e paixão tem muito disso, ao passo que eleva esse efeito a níveis estratosféricos (“respira”). Noutros momentos, a ritmada parece contornar esse minimalismo de modo a criar uma atmosfera dub que antes só parecia ser possível em terrenos mais avançados do mandelão, como fizeram ano passado alguns DJs que flertaram com a eletrônica formal.

O destaque dessa estética é “sei q tu gosta”, com DJ LEAL ORIGINAL e Mc Vuk Vuk. Os fragmentos vocais da acapella têm, também, alguns espasmos do funk de BH, como se fossem mescladas as letras e a batida, que dão a impressão de serem tiradas do fundo de um galpão abandonado. É pura texturização, pois se falamos de ritmada, o elemento percussivo é essencial para compreender o ponto de flexão entre o ritmo que pode: 1) se tornar mais acessível, e por isso se aproximar de tendências mais mainstream do funk paulista; ou 2) se aprofundar num loop de batidas secas, dub, tubulares. Não tenho dúvidas de que xavisphone, aqui, escolheu o segundo caminho. E por isso balança e paixão tende a tocar em pontos onde muitos DJs da ritmada, como DJ JEEH FDC e o próprio DJ RD DA DZ7, não tenham tocado.

Selo: Modern Love
Formato: LP
Gênero: Funk / Ritmada
Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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