Crítica | Pesadelo Ambicioso


★★★★

Se você procurar, seja em fóruns ou em sites agregadores de avaliações de usuários, como o Rate Your Music, encontrará um estoque certeiro de produções brasileiras de música experimental. E, talvez do pouco que encontrar, haverá Ruim, lançado pelo projeto Chelpa Ferro em 2015. O disco, que se desenrola entre noise e texturas eletrônicas ásperas, foi um marco pessoal na minha exploração por terrenos íngremes da dita música, também dita de vanguarda, também dita nacional.

É, sobretudo, um disco que considero pouco falado, discutido e pensado como um dos produtos mais interessantes da produção artística brasileira como um todo, especialmente quando se leva em conta o trabalho de ocupação do trio, composto por Luiz Zerbini, Barrão e Sergio Mekler, em exposições artísticas com esculturas e instalações tecnológicas.

Agora, eles se reúnem com Fausto Fawcett, jornalista, compositor, cantor e escritor, um dos nomes mais importantes do registro cultural brasileiro, sem exageros, para lançar Pesadelo Ambicioso como obra inaugural do selo de música experimental Outra Música: um disco-colaboração pautado na inquietação e no exercício livre de uma linguagem desenvolvida em múltiplas formas – que inclui também um livro e um LP – e que busca trazer um sopro de reestruturação de signos sustentado por uma frontalidade de formatos e ideias vindas do texto de Fausto, em seu característico estilo descrito como frenético, delirante, hiperurbano, apocalíptico, debochado, ácido, provocativo.

Pesadelo Ambicioso é isso, e muito mais. Na verdade, seu efeito musical beira um estado próprio de dissonância, como se existisse, em seu conteúdo, um som dado pela própria forma como o Chelpa Ferro compõe, com guitarras, baixo, bateria eletrônica, teclados, synths, samplers, gravações de campo e ruídos, e pela palavra falada, que insere uma concretude de posições e espaçamentos do texto que passam longe de soar galerista – muito pelo contrário. Há, em todo o disco, uma intensa articulação de interação, como se a barreira que separa o ouvinte, a noção lógica do ouvir, da audição semi-bancária, fosse destruída pelas escolhas que os termos ditados por Fausto produzem no instante em que invadem o túnel anatômico do ouvido, do tímpano.

“O pesadelo ambicioso é a criatura que surge das entranhas da mente coletiva”, ele diz na abertura que carrega o nome do disco, enquanto as texturas metalantes do Chelpa Ferro vão se descolando ao fundo, esperando o momento exato de invadir o mesmo túnel por onde ecoam as palavras, suas estruturas sintáticas e seus significados lançados num devir de provocação. A obra segue por esse mesmo caminho, não se altera, porque não vê no ritmo uma maneira de dosar ou simplesmente alegrar quem ouve em busca de uma satisfação vaidosa sobre as provocações, estas, sim, que se amontoam e se empilham umas sobre as outras.

Em Araruama, um homem derramando sabão em pó no corpo vai gritando: eu sou pansexual


destaca também o grito em “Sabão Minerva”. Em voz alta, sem dispensar o contexto ativo ou passivo da sua direção sintagmática, Fausto e Chelpa Ferro parecem evitar contenções do que esse tipo de fala pode simbolizar em um amplo tom de ordem. E é aí que reside algo particularmente interessante, pois não se faz por fazer. Faz-se porque, nessa peça em questão, existe uma sequência dos mesmos posicionamentos que atravessam o disco por completo, ou seja, uma visão sobre os rumos pós-pandêmicos em questão de pensamento e da própria linguagem, aqui a musical.

Esse desprendimento é necessário para encarar Pesadelo Ambicioso como uma amálgama menos exata, menos discursiva e mais dinâmica de um parecer que se adequa aos simbolismos dados pela já citada concretude das palavras. É um disco que devora o próprio discurso, a própria estética do som e a própria coexistência com aquilo que introduz como referencial e aquilo que é referenciado: o mundo, esse pesadelo coletivo e ambicioso, às vezes individual, às vezes banhado a sabão em pó, mas sempre em disputa com e por algo.

Selo: Outra Música
Formato: LP
Gênero: Experimental

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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