
★★
É de se admirar que, no auge dos seus 72 anos, Kim Gordon tenha disposição para lançar dois discos que são, um em maior medida que o outro, interessantes. PLAY ME, na verdade, é bem próximo de The Collective, de 2024. É mais enxuto, tão curto que parece passar voando. Soa por conta disso uma versão redutiva de tudo o que ela havia explorado lá atrás, mesmo que a parceria com Justin Raisen permaneça aqui.
No álbum, seguem os estímulos de ensaios (não porque ela trata desses sons com superficialidade, mas porque a serventia que eles têm pra ela, embora funcione, não é a mesma que têm em seu contexto original) de rap – retirados sem um critério maior de tendências recentes do gênero – e de batidas que adentram num espécime de trap enferrujado e com lírica esparsas, minimalistas. “NO HANDS”, com ruídos e batidas industriais, acena para o hip hop industrial que demarcou os melhores momentos de The Collective, dessa vez, porém, há um aumento da marcação atonal, de modo a isolar os componentes que caracterizam o estilo.
O som e as letras compartilham deste aspecto estético como se Gordon não quisesse servir algo além do que o seu sorteio de palavras pode pressupor. A abertura, que carrega o nome do álbum, “PLAY ME”, parece empilhar uma dúzia de palavras cujo significado não vai além de uma listagem de… palavras. O mais engraçado, é que dá a impressão de cessar em alguns instantes o seu passeio no trap por sugerir um boom bap clássico, com baterias e instrumental empoeirado.
Por vezes, produz um efeito dadaísta, impressionando menos pelas escolhas individuais e mais pelo que os elementos, em conjunto, tendem a causar. Em “DIRTY TECH”, por exemplo, zumbidos e chiados perseguem a letra, dessa vez mais direta e sedutora, ainda que escrachada num jeito kim gordiano: “Are you my white collar service worker? / The subplot (Yeah, yeah, yeah) / You want me, lift me up, fallеn / Lift me up, fallen down (Yeah, yеah, yeah) / I like it when you talk dirty tech to me / Talk dirty tech, talk dirty tech”, ela canta sem qualquer receio de botar pra fuder com aquilo que, para muitos, a composição, o ato de compor, escrever e arranjar, costuma representar.
Em outros momentos, PLAY ME arrisca levar a veterana, cofundadora do Sonic Youth, de volta ao território do rock, é o caso do single “NOT TODAY” e das faixas “GIRL WITH A LOOK” e “BUSY BEE”. Juntas essas músicas são o que pode ser dito de momento refrescante entre as ideias de Kim e do próprio rock alternativo atual. São faixas que dependem de uma cadência instrumental carregada de texturas, como as quais Kim fizera como membro de uma das bandas mais importantes do rock. Uma pena que, para além dessas, PLAY ME se pareça no fim das contas com um lado B do The Collective e de sua ruma de rage-trap-rap-industrial e toda essas coisas que ela vem fazendo muito bem, mas que a esta altura do campeonato acaba se repetindo demasiadamente.
Selo: Matador
Formato: LP
Gênero: Rock / Hip Hop, Experimental