Crítica | The Collective



★★★★

Em novo lançamento, Kim Gordon mostra a possibilidade de se pensar novas estéticas, mesmo depois de uma carreira já muito estabelecida.

Ninguém esperava que esse álbum chegasse, mesmo quem gostou de seu disco solo anterior — Kim Gordon fez questão de surpreender em todos os âmbitos com The Collective. Não é pelo maldoso pensamento de que uma pessoa com 70 anos não pensaria em algo tão diferente, ou pela esperança de ouvir mais um disco de noise rock da mulher mais famosa do gênero no ocidente. A verdade tá muito mais profunda: ninguém esperava que o no-wave poderia ser completamente reinventado depois de tanto tempo.

E mesmo assim, foi. Seguindo a tendência de alcançar uma anti-arte (ou anti-estética, mais especificamente), a crítica da geração atual — muito mal interpretado por alguns como uma atitude boomer da artista —, o desinteresse em se manter dentro do tempo, de fazer progressões naturais e confortáveis, a produção totalmente suja e abstrata e adicionando elementos do trap; Kim Gordon lançou seu manifesto anti-musical em formato de LP.

Difícil argumentar o porquê, mas para além de uma experiência tão sensível artisticamente, é um disco muito divertido. É impossível não se perder nas visualizações absurdistas cantadas por Kim Gordon, ou não se apegar às diversas experimentações com texturas que acontecem ao longo da obra. Quem tem uma familiaridade com o no-wave vai ter um prato cheio aqui de diversão, que incluem novas formas digitais de se pensar a abstração do uso de guitarras.

Talvez a principal diferença e inovação seja mesmo no diálogo entre a produção mais digitalizada e os elementos orgânicos. Seguindo a tendência do The Velvet Underground, um no-wave mais tradicional prioriza deixar o som o mais sujo possível sem manipular o estúdio, menosprezando, e por vezes dispensando a mixagem dos instrumentos. Em The Collective é diferente, a manipulação está por toda parte, mas não para limpar o som, e sim para sujá-lo ainda mais, com influências da produção da música experimental recente, o noise continua agressivo e ainda mais corrosivo, inclusive, vi muitos até comparando a uma experiência psicodélica — ainda que não seja por definição, é sim uma boa forma de visualizar essas texturas que vão e vem ao longo das músicas, devido ao manuseio de produção extremamente bem feito.

Por fim, é difícil não encher de elogios a vivacidade da interpretação de Kim Gordon em cada uma das músicas, ela não larga a mão de seus trejeitos já tradicionais de cantar e se posicionar, contudo, não deixou de forma alguma de tentar inovar nessa nova estética do trap. É, sem dúvidas, uma das coisas mais emocionantes para se ver como um fã de Sonic Youth de longa data. Para além disso, resta o desprezo para quem, diante de todas essas coisas, ainda insiste em menosprezar uma artista que, em idade avançada, decide explorar elementos novos, mas sem largar suas antigas influências. O bom é saber que, como um nome desde sempre subversivo, ela não vai parar, nem se todo o coro de críticos decidir que ela deveria.

Selo: Matador
Formato: LP
Gênero: Rock / Hip Hop Industrial, Rock Experimental, Trap, No-wave, Power Noise
Tiago Araujo

Graduando em História. Gosto de música, cinema, filosofia e tudo que está no meio. Sou editor da Aquele Tuim e faço parte das curadorias Experimental, Eletrônica, Funk e Jazz.

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