
Fãs de música pop têm uma visão frequentemente distorcida de gêneros e estilos musicais. Se pensarmos o pop como um termo guarda-chuva, essa questão se torna ainda mais nítida. Um exemplo clássico e relativamente recente dessa distorção ocorreu quando Taylor Swift lançou folklore, um disco que, de fato, incorpora muitos elementos do folk, e por isso parte dos fãs passou a cobrar de sites e revistas que o avaliavam para que não o enquadrassem na categoria pop, chegando a sugerir que se tratava de algo “alternativo”. Outro caso é o que acontece com Lady Gaga naqueles vídeos que a mostram cantando em vários gêneros (jazz, eletrônica, rock, synth pop, house, entre outros), como se tudo isso não integrasse, no contexto artístico dela, uma única coisa: o pop.
E é justamente esse tipo de visão que leva muitas pessoas a tratarem lançamentos como The Romantic, de Bruno Mars, como algo pouco “diverso” no sentido classificatório de estilo, o que é um equívoco, já que a música pop, nesse contexto, pressupõe diretamente essa condição. E não se trata apenas dele. Se observarmos com atenção, a própria Taylor Swift parece estar lançando o mesmo disco pela terceira vez. A questão não deveria girar em torno da manutenção de um estilo apenas por sua familiaridade ou da permanência numa suposta zona de conforto, ainda que ele nitidamente corresponda a tudo isso e continue correspondendo. Seria ingenuidade esperar que Bruno Mars, sendo um dos maiores nomes da música pop atualmente, assumisse riscos ou lançasse algo verdadeiramente fora do comum, seja em termos de gêneros, seja em termos de ideias.
Dito isso, The Romantic é melhor do que se poderia esperar. O disco realmente não vai além de nada que Bruno Mars já não tenha feito – por isso lhe atribuo duas estrelas –, mas é tão interessante quanto tudo o que veio antes. Em primeiro lugar, há um aproveitamento sólido de quase todas as músicas, o que facilmente pode ser considerado o melhor álbum dele nesse aspecto. Veja bem: assim como Rihanna, Bruno Mars costuma ter singles e algumas faixas muito boas, extremamente populares, mas que, quando colocadas ao lado do material completo – o LP ao qual pertencem –, acabam revelando certa discrepância, não apenas na qualidade, mas também no quanto de interessante ele consegue oferecer nessas músicas isoladas e no quanto deixa de oferecer no conjunto dos discos.
Aqui, em certa medida, todas as faixas se alinham em torno de melodias e ritmos alegres, que reluzem diversão na mesma proporção que uma nostalgia embalada pelo soul e pela já clássica característica funk de Bruno Mars, ofuscada em seus álbuns anteriores. E o fato de este ser um material enxuto, com seus 31 minutos contribuindo para a impressão de que há poucos fillers, torna a audição completa quase inevitável, e também agradável, especialmente em momentos como “On My Soul”, quando as guitarras explodem em versos percussivos e vocais tão bons quanto os que ele entregou em Silk Sonic. Há aqui uma entrega madura, consciente e que faz falta em artistas masculinos desse calibre. É um álbum para ouvir sem medo de ser ruim ou apenas mais do mesmo.
Selo: Atlantic
Formato: LP
Gênero: Pop / Funk