Crítica | Spiral Staircases


★★

Larry June é sinônimo de opulência palpável. Com suas capas fazendo odes à carros antigos e que simbolizam o luxo alcançável, o rapper sempre foi visto pela sua capacidade de contar boas histórias, relatar as suas vivências que perambulam entre a ostentação e problemas com mulheres. Sempre visto como um rapper de cadência calma, começou a colaborar com o prolífico produtor The Alchemist na agradável The Great Escapade, que mostrava as batidas lentas e sampleadas do produtor americano se encontrando em uníssono com o jeito elucido e tranquilo do rapper de falar como gasta o seu dinheiro.

Em contraponto, Curren$y sempre foi visto como um rapper de voz exótica e rimas agressivas que também pendiam para o lado da ostentação, mas com um estilo bem mais incisivo e com inúmeras mudanças de flows interessantes. Ambos já colaboraram inúmeras vezes em períodos mais passados de ambas as carreiras, mas aqui, vemos eles em momentos completamente distintos. Curren$y, que viveu seu auge na época de Fetti, colaboração com o agora inimigo anunciado Freddie Gibbs e reclusado ao underground, enquanto Larry June se mostra um rapper que não tem ambições para o mainstream, mas que mantém o pé no terreno em colaborações com 2Chainz e Don Toliver.

Juntos, eles entregam Spiral Staircases, que já demonstra essa ostentação sadia na foto de capa, mostrando uma paisagem que exala conquista, mas calmaria ao mesmo tempo, enquanto uma escada em espiral, símbolo de eloquência arquitetônica, compõe o grande cenário. Arquitetônica, essa é a forma como The Alchemist coordena a dupla. Larry June nunca extrapola a calma e a ternura, enquanto Curren$y funciona como contraponto com rimas mais agressivas, mas que não tendem a chegar à ira. O assunto que conduz o álbum não é nada fora do comum: dinheiro, a forma como eles lidam com a quantidade de dinheiro, a traição que se torna oriunda da quantidade do dinheiro, por aí vai.

Mas, o que poderia se tornar maçante, se torna uma experiência bastante agradável, seja pelos loops utilizados por Unc Al em “2. P.I.G”, faixa em que ambos, em bastante sincronia, falam sobre as traições que tiveram durante o caminho por meio de analogias com o famoso jogo de xadrez. Aqui, Curren$y rouba a cena com um flow completamente hipnotizante. Se Curren$y voa, June soa confiante, não o bastante para ser ofuscado e mantém o ouvinte curtindo a vibe que há de ser oferecida.

A forma como os aspectos sociais que definem o sucesso deles são ditos e rimados quase como rezas revela o quão sinceramente ambos se sintonizam, e o melhor exemplo dessa união harmônica talvez seja a faixa-título, “Spiral Staircases”. O sample soturno ao fundo não toma conta da música, e o refrão, que esbanja a confiança de Curren$y, é chiclete o suficiente para ser entoado como um mantra pessoal.

A escolha por um álbum curto é assertiva, pois o espaço para o marasmo espacial que um álbum desse calibre poderia ocasionar seria de uma chance maior, mas, aqui, os rappers se mostram sucintos e bastante diretos no que têm a falar. Um dos únicos problemas é a forma protocolar na qual os instrumentais se portam. Loops, batidas mais cadenciadas e leves alterações aqui e ali trazem a impressão de que The Alchemist não quis fugir muito do padrão de ambos ou mostrar mais equivalências, jogando em um terreno seguro e sem riscos. A única faixa que mostra uma certa cara nova é a intro “Stars in The Roof”, com um sample de guitarra sintetizadora hipnótica e um Curren$y extremamente hábil com o seu verso que obliterou June nessa batalha pacífica.

O que temos no final é um disco agradável, que mostra os dois rappers mais prolíficos do underground unindo forças de forma que ambos exibem os seus momentos de glória, mas nada tão memorável. Um álbum confortável, mas que também não busca ser marcante da forma que se espera, já que June e Curren$y não querem provar nada a ninguém, subindo essa escada em espiral, que dá no mesmo edifício.

Selo: The Freemind Records / EMPIRE.
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Rap

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