Crítica | Mercy


★★

É difícil escutar Mercy, novo material de trabalho e o sétimo disco de estúdio da genial dupla de hip hop Armand Hammer. Mas não porque seja uma escuta densa e complexa similar a que foi a de seu antecessor lançado em 2023, o qual o que tinha de denso tinha de magnífico. Há uma clara quebra de expectativas aqui, por conta da direção tomada pelo lendário beatmaker californiano The Alchemist.

Indo na direção contrária na maioria das vezes durante a duração do álbum, o produtor decide deixar de lado os instrumentais mais abstratos e recheados de camadas, ecos e sintetizadores singulares que construíram a atmosfera completamente imersiva de We Still Buy Diabetic Test Strips para usar samples mais vividos, loops de guitarra e piano. A direção criativa é mais retilínea, o que faz com que esse álbum fuja completamente do imersivo ou do densamente complexo, área em que a dupla de rappers floresceu com louvor.

Apesar disso, eles cumprem o seu trabalho. Oferecem rimas complexas e perguntas existenciais que são o cartão de visita de seus materiais, e se recusa a respondê-las de forma direta, utilizando dos seus versos como respostas sem fechamento, sem catarse. Mas, de uma forma decepcionante, perde a força em instrumentais não tão inspirados e participações que não conseguem agregar à visão geral do duo. As oscilações são agressivas e tiram o poder que a dupla poderia alcançar durante os quase quarenta e cinco minutos.

Os momentos mais desafiadores se mostram quando as batidas recuperam elementos clássicos de Uncle Al, sem o refinamento do passado, com chimpunk soul sample fazendo todo o trabalho do instrumental. “Moonbow” mostra um ELUCID emulando a veracidade e frustração com as quais billy woods, sua contraparte, costuma rimar, enquanto woods mantém o ritmo de sempre, adicionando a cautela de ELUCID. A dupla funciona como arroz e feijão, um não necessita do complemento do outro para existir, mas quando estão em uníssono, se engrandecem de forma absurda.

Mesmo com os seus momentos que exibem flashes da grandeza já vista pela dupla, a oscilação harmônica tem como o seu abismo a última parte do álbum, com emulações claras do ritmo ditado no projeto antecessor, mas que simplesmente não funcionam por não terem sido introduzidas de forma prévia, se tornando uma progressão aleatória e extremamente gratuita, denotando o quão desconexo esse álbum soa em uma ótica mais universal.

Se tem uma coisa em que Mercy funciona é mostrar o quão obsoleto se tornou Armand Hammer no escopo do hip hop abstrato, sem a necessidade de nomes potentes para engrandecer o seu corpo de trabalho. Em suma, o esplendor da dupla funciona quando eles tomam as rédeas da direção, uma pena, já que, até então, The Alchemist era um dos nomes que mais casavam com a ideia que a dupla queria passar, em vista do primeiro álbum em colaboração do trio, Haram, que mostrava a crueza da sociedade atual com batidas completamente empolgantes e nada lineares.

É, portanto, um disco seguro para ouvintes assíduos da dupla, mas seguro não é a palavra que combina com o vocabulário de ELUCID e billy woods.

Selo: Backwoodz Studioz.
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Abstrato

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