Critica | Mandra



É no mínimo curioso — pra não dizer frustrante — observar como alguns artistas que nascem e se moldam nas entranhas da internet decidem, em algum momento, simplesmente virar as costas para essa origem, algo que parece ser exatamente o caso de Mørder em seu novo álbum, Mandra. Sendo um fruto direto de criações digitais e experimentações mais soltas, dá a sensação de que ele meio que esqueceu que a sua música vem dessa cultura de rede que é naturalmente menos engessada, partindo agora para uma busca incessante por uma "cristalização" sonora que soa muito mais como uma tentativa desesperada de se encaixar nas estruturas conservadoras e formais da música eletrônica tradicional do que, de fato, um refinamento genuíno da sua própria identidade.

E essa procura quase cega por uma validação formal respinga direto na proposta do disco, já que aqui ele se propõe a continuar uma linha de pensamento focada quase que exclusivamente no trance e em suas vertentes, abandonando por completo aquela execução de dungeon synth pela qual ele havia ganhado um destaque lá atrás. O problema é que, nessa ânsia de soar como um produtor mais "dentro da caixinha", essa cristalização toda acaba virando um baita ponto negativo, fazendo com que as composições fiquem presas em eixos tão lineares que a audição chega a ser exaustiva de tão tediosa.

Toda essa frustração bate ainda mais forte quando a gente puxa o histórico do artista e lembra que ele começou a trajetória apostando no sound collage, uma época em que demonstrava uma facilidade muito natural para entregar trabalhos bem executados e super despretensiosos, até desenvolver aquele fascínio pelo dungeon synth que, entre várias tentativas e erros, culminou no seu acerto: The Marches of Mørder. Só que o peso desse acerto é tão marcante que, olhando para a pasteurização dos projetos que vieram depois, bate aquela triste e inevitável constatação de que, sinceramente, era melhor ele ter parado por ali mesmo.

Quando voltamos as atenções para o presente, percebemos que Mandra se estrutura basicamente em cima de dois gêneros: o trance e o EDM. Esteticamente falando, a proposta até consegue chamar atenção de início, tanto que a faixa “Carrying iT On (Intro-Loop)” chega a acender uma fagulha de esperança de que o trabalho tem algo a oferecer. Porém, mal saímos dessa primeira música e já descobrimos a dura realidade do que nos espera. É verdade que a repetição é um elemento inerente a esses estilos, mas isso não serve de desculpa para uma hegemonia de texturas estáticas que perduram por mais de cinco minutos.

Os poucos momentos de quase brilho do álbum acontecem justamente quando ele injeta o EDM com mais força, permitindo-se quebrar um pouco dessa linearidade. Sempre que esse gênero se faz mais presente, nota-se que Mørder teve um cuidado extra em trazer nuances para a produção, algo que se materializa de forma clara na faixa “This Is The End of The World (Lady Bugg)”. E mesmo que não dê para afirmar com certeza se houve alguma inspiração direta em outros nomes da eletrônica , outra música que brilha é “9verall Im dying to know”. Ela soa como um frescor no meio do disco exatamente por apostar numa abordagem muito parecida com a que Mike Klubnika fez na trilha sonora de Buckshot Roulette, puxando um techno industrial para o centro da composição.

Colocando tudo na balança, o saldo final deste lançamento é praticamente nulo. Não é querendo ser carrasco nem nada do tipo, mas Mandra é um zero muito à esquerda na discografia dele. Apesar de ter uma premissa inicialmente interessante, a progressão do disco se demonstra tão tediosa e presa às próprias amarras que chega a um ponto onde a audição vira um esforço, fazendo com que as faixas soem muito mais como ruídos sem importância do que propriamente como músicas de um álbum com algo a dizer.

Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Eletrônica / Trance, EDM

Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

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