
★★★★
I Guess U Had To Be There funciona pela tensão, essa já construída logo na faixa inicial. O instrumental, em sua ausência de baterias, composto apenas por breves palmas harmônicas em junção com um misterioso e inquietante sintetizador, mostra um E L U C I D um pouco mais preciso na criação de suas rimas. Em projetos anteriores, ele se mostrava muito mais um poeta abstrato, com a complexidade de suas rimas morando na busca do vazio e na construção desse do que o seu oposto. Aqui, podemos ver um pouco mais de sua transmutação. O artista parece observar o caminho do seu contemporâneo e frequente colaborador billy woods, mas sem abandonar a sua própria identidade lírica. O resultado que temos é um E L U C I D preciso e firme em sua escrita, reafirmando a sua identidade e mostrando uma clara evolução em sua lírica.
O produtor suíço Sebb Bash, a outra metade do projeto, sabe exatamente o tom certo de suas batidas. O produtor busca não sufocar o emcee, dando o espaço necessário para que E L U C I D possa soltar as suas linhas mais precisas e clínicas. “Cantata” impressiona com as suas baterias remetentes ao estilo Alchemist, mas trazendo uma nova roupagem; o sample vocal masculino em loop e a inserção de elementos como a harmonia regida por um teclado te colocam para mexer a cabeça em uníssono com a batida enquanto E L U C I D comenta sobre o contraste de tempos, um mundo que prefere se iludir em futilidades enquanto a mãe natureza pune os humanos:
Truth or dares in a time where the sea is running scared / Between the deceiver and the dream, it's almost there
Em menções anteriores, o rapper americano comenta que buscou um caminho orientado para a linha de rap contemporâneo, em vez de sua característica de abstracionismo lírico que sempre tanto oferecia. O desafio é concluído com sucesso, com o artista não lançando os seus melhores flows, mas suas melhores ideias e conceitos até então. Em “Make Me Wise”, E L U C I D constrói um primeiro verso arrepiante em cima de um dos melhores drumless instrumentais deste ano, com um xilofone e um sintetizador sombrio que fazem o ouvinte ficar preso em um ambiente claustrofóbico. O rapper se auto-proclama o último drive-in americano cinematográfico e ministro da cultura, tudo para pincelar uma das melhores observações políticas em um rap contemporâneo:
Scarcity is a lie of the state / They pairin' propaganda with pie in the face
Se o rapper acreditava em uma veia muito mais incisiva, ele pula em um boombap que se assemelha aos clássicos de décadas passadas mas com elementos do abstrato. “Equiano” é uma das faixas que exemplifica bastante a proposta de E L U C I D para esse projeto: é um novo caminho, mas o mesmo viajante. É incrível como o rapper consegue ao mesmo tempo se transformar no meio de inúmeras camadas, mas manter a sua base, o seu pé firme no que acredita e no que é ao mesmo tempo. A clarineta tocada aqui por Shabaka é o toque refinado que o instrumental precisava, junto com o teclado tímido em sua última camada.
Mesmo assim, o projeto sofre com oscilações em sua qualidade, mais precisamente no meio do projeto, não é nada que seja gritante ou preocupante, mas há encontros que não funcionam com tanto poder quanto os mencionados anteriormente. A inserção de Breeze Bewin soa bastante desinteressante quando nos é apresentada a virada de instrumental após o seu verso, apresentando um desequilíbrio bastante perigoso no álbum, algo que é pincelado na faixa anterior, “The Lorax”, em que billy mantém a barra lá em cima, mas longe de ser um padrão de qualidade woods. “I Say Self” é minimalista e abstrata demais, se desvirtuando bastante do caminho apresentado trilhado pelo artista americano, mas sendo curta demais para se tornar um incômodo doloroso e contínuo.
Em pouco menos de 32 minutos, se houvesse ainda perguntas para onde E L U C I D poderia caminhar após REVELATOR, o rapper as responde com ainda mais caminhos, iluminando-os com a sua caneta extremamente afiada e muito mais concentrada neste projeto. Alinhado com uma produção que entende, respeita e desafia o americano, temos uma das obras de música em ritmo e poesia mais impressionantes de 2026 e o pico de sua longínqua carreira (solo) do rapper.
Selo: Backwoodz Studioz / Rhymesayers
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Rap, Hip Hop Abstrato