Crítica | GOLLIWOG


★★★★

Com horror, costumamos virar o rosto quando prevemos uma cena contundente ou geralmente pausamos quando já esperamos algum tipo de jumpscare ou cena mais pesada. GOLLIWOG desafia o ouvinte a encarar os horrores mais profundos da sociedade pela sua audácia, com instrumentais que transportam aquele que ouve ao mundo distorcido e que beira ao lunatismo de billy woods.

Não conseguimos pausar, não conseguimos deixar para depois. A cada progressão de faixa, o mundo se expande e a curiosidade mantém o ouvinte preso àquele horror. Seja a luta de classes sociais já mencionada diversas vezes durante a sua carreira, o racismo estrutural presente nos Estados Unidos e o resultado do colonialismo europeu; woods não só desafia o ouvinte, mas a si mesmo, utilizando o horrorcore não pela aleatoriedade do choque, mas para causar um desconforto em seu estômago, e de uma forma tão clínica que assusta mais do que o assunto em si.

Títulos que utilizam desse artifício às vezes podem ultrapassar a dose certa, nichando o seu alcance e podendo causar quase um revertério musical, forçando o ouvinte a abandonar a trajetória que estava trilhando. woods é clínico o suficiente para manter o ouvinte assustado, de certa forma, como curioso, instigado e impressionado.

Mas não se engane, para fãs mais casuais, a escuta é densa e bastante desconfortável por conta de seus instrumentais que emulam a claustrofobia e às vezes beiram o minimalismo, mesmo apresentando uma complexidade estética. Neste título em específico, woods se aprofunda ainda mais na gentrificação que ocorre à sua volta e na violência inerente nas Américas em geral logo na introdução do mundo de GOLLIWOG, em “Jumpscare”, quando woods rima:

The English language is violence / I hotwired it / I got ahold of the master’s tools and got dialed in.


Com uma carreira extensa e já experiente, woods demonstra uma consciência impressionante não só do que é inerente a si, mas ao mundo que o cerca, na terra que habita e pisa. Neste momento, ele subverte o pensamento de violência gratuita e mostra algo calculado e direcionado, quase como um serial killer meticuloso. Não há violência que passe despercebida pelas linhas pungentes do americano.

A extensa lista de produtores não transforma a escuta em algo randômico ou disperso, pelo contrário, assim como em sua última apoteose em parceria com ELUCID em 2023, cada nota, samples de mulheres chorando, cada sintetizador maquiavélico e loops opacos se colam em uníssono – bizarro –, criando um mundo completamente característico e de complexa digestão comum. O mirante de toda a escuta, “A Dollar Full of Pins”, traz uma harmonia de um saxofone conduzido com uma transcendente maestria, enquanto o refrão cantado por Yolanda Watson arrepia cada molécula existente no corpo humano. Ao mesmo tempo, woods rima sobre a figura do afro-americano que se torna um sujeito sem paz, cuja sua cultura e personalidade são constantemente perseguidas, seja por motivos de ódio ou por simplesmente desejo de conquista.

GOLLIWOG é um título extremamente complexo para se colocar palavras diretas. Qualquer tipo de rótulo que for colocado não será o suficiente para magnificar o que esse álbum faz com a sua alma, com o seu pensamento e estômago. woods progride não só em imersão, mas em suas rimas a cada música, mostrando exímio tato na arte de rimar.

Na arte abstrata, seu nome já é tido como um dos mais renomados, mas a discussão aqui deve ser muito mais abrangente. Em meio à geração pós-2015 que redefiniu o rap underground com estéticas mais abstratas e lirismos densos, GOLLIWOG surge como o trabalho mais chocante e devastador de sua safra, catapultando billy woods em conversas que antes se reservavam a apenas gigantes do gênero. Não apenas sua obra-prima solo. Uma das do hip hop contemporâneo.

Selo: Backwoodz Studioz
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Abstrato, Horrorcore

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