Crítica | IDENTIDADE PRÓPRIA


★★★

Você provavelmente já ouviu alguma música do Mc Vitinho ZS por ai. Direta ou indiretamente, sua voz ressoa uma familiaridade que percorre os bailes de São Paulo. Ele faz parte de um espaço que funciona como midstream do funk, ou seja, que se adequa às noções criativas compartilhadas entre o underground e o mainstream, e por isso, dá a impressão de ser um MC extremamente popular, mesmo que permaneça atrelado às limitações de mercado.

Seu novo álbum, IDENTIDADE PRÓPRIA, funciona como uma descrição perfeita do momento e do espaço que ele ocupa no mandelão. Aqui, todas as músicas parecem hits prontos, não por seguirem uma fórmula de sucesso ou coisa do tipo, mas por serem construídas com a voz e o verso de Vitinho ZS que, como dito anteriormente, é exímio em expor essa certa familiaridade. É como se as nove músicas aqui fossem exatamente o tipo de faixa ecoariam numa eventual perfuração de camadas em que ele, subitamente, passasse a integrar o mainstream.

O álbum, que poderia focar apenas na voz por isso – e o potencial do MC em criar delas acapellas – tem ótimos beats e ritmos diversos, que diversificam e parecem dialogar com a criação de uma identidade verdadeiramente própria, como sugere o título. Veja bem, na maioria das vezes, os álbuns de MCs são diferentes dos álbuns de DJs, com algumas exceções como o MC FREITAS ZS. Enquanto os DJs estão mais preocupados em fazer delimitações estéticas, como explorar o experimentalismo de gênero do funk e seus limites musicais, às vezes, a própria recusa dos limites (como DJ Arana, DJ Blakes, DJ K e d silvestre costumam fazer no contexto do mandelão), os MCs buscam apresentar seu potencial lirico, sua voz, sua astucia em criar acapellas e versos que instiguem atenção.

Mc Vitinho ZS parece não querer isso aqui. O álbum, mesmo que focado na ritmada – esfera do mandelão que se aproxima em forma (e estrutura) do mainstream do funk paulista –, tem suas diferenças acentuadas através de momentos como “VAI ENTRAR NA CHAPA”, com MC GUH ORIGINAL, DJ JOTA ORIGINAL, Dj Guuh e MC Brew. A música surge com uma espécie de saxofone, exageradamente colocado, mas que logo vai dando espaço para a percussão, típica da ritmada, com aceno ao que parece ser uma evolução paulista do beat mano pepa. Esse sax, que não é novidade, e que nomes como DJ RD DA DZ, referência máxima na ritmada, estruturaram no funk atual, exerce um papel fundamental aqui sendo um dos grandes efeitos causados por elementos que Mc Vitinho ZS usa pra tornar o som ainda mais acessível.

O mesmo vale em “CAVALINHO SALIENTE”, com DJ W DA ZS, que surge com um sintetizador lúdico seguido de cordas agudas que duram a faixa toda. Aqui, Mc Vitinho ZS se propõe a mostrar como criar um hit perfeito. A presença de Yuri Redicopa torna ainda mais evidente essa força pegajosa que a música e sua atmosfera têm, assim como a repetição do “vai entrar na chapa”. Na sequência, “TOMOU COÇA DE PIRU” é um dos pontos altos. Lembra muito a vontade que nomes como DJ Guina tinham há uns dois anos atrás de destruir as caixas da ritmada, apostando num ritmo tão seco quanto minimalista.

No fim das contas, IDENTIDADE PRÓPRIA acaba reunindo muitas identidades do funk, e talvez por isso seja tão interessante. Trata-se de um MC brincando com os códigos que já são fixos do gênero para prosseguir com o que ele tem de melhor, dada a estagnação dos materiais lançados por DJs, que vêm desde o ano passado ficando presos numa homogeneização tosca, com os mesmos beats, as mesmas ideias. Embora haja algo disso aqui, Mc Vitinho ZS tem êxito em fazer com que tudo pareça apenas seu, afinal, identidade própria é isso.

Selo: PRODOK/MANDELA RECORDS
Formato: LP
Gênero: Funk / Mandelão, Ritmada

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

Postagem Anterior Próxima Postagem