Crítica | FUNK


★★★★

Se traçarmos uma linha do tempo cruzando a história do funk, seja como movimento ou como gênero em si, as diferenças são tão acentuadas que se torna quase impossível fazer uma associação simples. O funk paulista, especialmente o bruxaria, dá o contorno mais extremo dessa linha, e nomes como DJ Blakes são essenciais para compreender a distância entre uma ponta e outra. O jovem DJ é referência quando o assunto é o emprego de um elemento essencial das vertentes mais barulhentas e desafiadoras do funk: o tuim. Ele pode ser um beat, também é um som; é, no todo, uma peça central da estética do bruxaria e, sobretudo, o nome de algo – que inclusive usamos – e por isso é amado e odiado.

Em seu novo álbum, FUNK, o DJ traça paralelos em torno de sua jornada no gênero, faz referência às suas marcas e às marcas que carrega. Parte da metalinguagem, brinca com o que Playboi Carti fez em MUSIC e, se lá o rapper americano subtrai a narrativa do que é música, Blakes faz o mesmo, mas de forma mais direta e menos furtiva: ele mostra o que é o funk. Trabalha, nesse sentido, com tudo o que o gênero vem propondo em termos de experimentação na década de 2020 até agora e embala tudo sob o som do tuim, o som mais revolucionário da música brasileira desde que se tem notícia.

Por vezes, Blakes se vê compelido a seguir à risca alguns dos sons que ele retira de MUSIC, de Carti, para engolir e cuspir a sua própria música. É nesse sentido mais antropofágico do que meramente referencial. E por isso funciona, já que ele consegue dar vida e sentido próprios ao que já existe, e a música funciona exatamente assim: como parte de algo que sempre existiu ou que ainda vai existir. “Evil Jordan da Dz7” é a melhor exemplificação disso. A faixa, encabeçada por DJ Rafinha Dz7, mutila, destrói e reencena “EVIL J0RDAN” de uma forma que nem mesmo um remix encomendado por Carti conseguiria fazer. As acapellas usadas caem como luvas, e o trabalho que Rafinha e Blakes têm em dar sentido a essa mistura, com marcas de ambos, é imensurável dados os elementos trazidos no corpo da faixa.

“Beat Psicodélico”, com HALC DJ, MC Rd e MC PR, que abre o disco, parte de um processo parecido com o que Blakes utilizou no trabalho anterior, Mandelãoworld. É mais trabalhada na ideia de absorver tendências, neste caso, as produções recentes de HALC, que beiram o noise e que aqui são tratadas como psicodélicas, e chama atenção por valorizar o volume estourado da mixagem. Algo semelhante ocorre em “Ritmo Sombrio”, dominada por DJ Dayeh e com participação de MC Madan, CACAU CHUU e MC Fabinho da Osk. Dayeh, que parece resumir com exatidão as marcas do funk paulista – e do seu próprio funk – sempre que ela está em uma música, faz com que a antropofagia de Blakes atinja níveis capazes de atordoar os menos desavisados.

Esse tipo de noção, pegar o som que está sendo referenciado, aplicar sobre ele diferentes assinaturas e uni-las à realização de Blakes, é uma das coisas mais interessantes que vêm acontecendo no funk paulista, sobretudo porque há um cuidado em tornar essa fusão mais diversa. Por isso, ainda que mínima, a presença feminina aqui funciona como peça central no rito que Blakes comanda em expor a si próprio e o seu espaço. É também por isso que “Isso é Beat de Bruxaria”, com DJ Alexia, nome feminino que tem despontado na cena, dá uma cara nova ao projeto. Ao lado de MC ZL e MC MN, ela comanda outra tendência da atualidade, que estabelece conexão com a energia punk do funk e do rage: o “rock”, não exatamente o rock em si, mas a atitude. A faixa é o puro suco do beat bruxaria, atrelado a pausas e guitarras descompensadas que borbulham no tuim, que surge na sequência, em “Tuim no Paredão”, como o ponto alto do disco.

Há muito tempo o zumbido do tuim vinha sendo deixado de lado em inúmeros lançamentos do funk paulista, especialmente aqueles que flertavam mais com a música eletrônica formal. E é difícil pensar o funk paulista sem o tuim, esse quase beat/estilo que mais define as características barulhentas do gênero. Notar que DJ Blakes ainda faz questão de tratá-lo aqui, ao lado de nomes que seguem compondo a vanguarda, como Dj luan pj e MC VK da VS, é motivo suficiente para refletir sobre a posição que ele ocupa. E não há como não vê-lo com a devida importância. Há, acima de tudo, a definição do tuim como força primordial e raiz que impede Blakes de esquecer de onde vem. E o disco se encerra exatamente assim: poderia ser apenas uma jornada, mas é uma afirmação absoluta do barulho. Do funk paulista. Do FUNK.

Selo: Hype do Funk
Formato: LP
Gênero: Funk / Funk Mandelão

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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