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Kiss All The Time. Disco, Occasionally., a começar pelo título, deixa claro que busca exatamente ser. E não tem como não pesar a mão sabendo que, mesmo que não chegue perto do sucesso comercial de discos anteriores do Harry Styles, este ainda assim fará um sucesso discrepante. Não é sobre merecer ou fazer valer o risco – como foi a performance vexaminosa dele no BRIT Awards –, mas sobre o poder de destruição que discos como este têm, sobretudo por tratar do uso, da sucção de cenas importantes pra música pop, e fazer isso da forma mais plana, oca, vazia, retilínea, fraudulenta e pífia que existe.
É plano porque parece se contentar em manter a mesma ideia de estrutura – o uso de batidas ancoradas em uma dance/eletrônica de fachada, com ganchos que o The xx idealizou com melhor fluidez em algum nível na década passada – ao longo de suas doze músicas. É oco porque se vale de uma pobreza escrita abismal, como se inexistisse uma conexão entre o sentido lírico das palavras e o sentido lírico das músicas em si. É vazio porque é incapaz de causar algum efeito, em termos de linguagem, que justifique sua extensa apreensividade (de ser rígido em sua exploração calculada) temática, que se escorre pelo som – o criado, o reutilizado e o feito com desdém –; por isso, também é retilíneo. É fraudulento porque parte de uma falsa diversidade musical, de curadoria (eu ri lendo em algumas críticas dizendo que ele teria um pé de inspiração em LCD Soundsystem, como se isso fosse grande coisa). Por fim, é pífio porque, segundo o dicionário, o adjetivo “pífio” se trata de algo de pouco valor; ordinário, reles. E, como em quase todas as críticas de grandes veículos hoje, às vezes há que se usar um adjetivo sem se aprofundar no peso dele no texto e no peso dele em relação à obra – resolvi fazer o mesmo, apesar de achar que Kiss All The Time. Disco, Occasionally. realmente é algo de pouco valor; ordinário, reles.
Talvez pior que esses adjetivos sejam os rumos que o termo “experimental” vem tomando a partir de alguns “críticos” (ou melhor, jornalistas) que ouviram muito esses projetos recentes ancorados em terrenos eletrônicos como BRAT e EUSEXUA, entre outros. Esbarrei por um tuíte que dizia: “um dos melhores (álbuns) do ano. diferente, experimental, dançante e cheio de personalidade”, o que me fez coçar a cabeça, pois não só é um desprezo com a verdadeira música experimental, como também um exemplo, uma amostra, de como qualquer variação de ritmo, qualquer ato de diferenciação musical do contexto de determinado artista – sua fatia usurpadora da música de vanguarda (essencialmente a eletrônica) – recebe a alcunha de “experimental”, que aqui se torna um estilo, um meio classificatório usado para distinguir algo “coeso” e “cheio de personalidade”, sem mentir dizendo que é só coeso e cheio de personalidade, porque nitidamente não é.
Destaquei, entre parênteses, o “essencialmente eletrônico” acima, porque este é o aspecto mais recorrente e de fácil identificação para ouvir e descrever Kiss All The Time. Disco, Occasionally. como sendo parte de uma onda, de uma mania – que pode ser muito bem aceita – do jeito como alguns artistas pop conseguem obter a cartada de apreciação do público médio se colocar caixas, cordas e dedilhados de piano numa faixa cujo sintetizador e todo o trabalho de design de som tenta parecer disruptivo, noturno, é o caso da sequência “Are You Listening Yet?” e “Taste Back”, e a peça solta “Season 2 Weight Loss”, sendo as duas últimas última um dejeto desagradável que Troye Sivan descartaria do seu excelente Something to Give Each Other, de 2023.
Por sorte, Kiss All The Time. Disco, Occasionally. cumpre bem a tarefa de nos tirar do limiar da diversão — outra palavra bastante usada sem sentido para descrever a chateza que ele é (“The Waiting Game” e “Coming Up Roses”, com um trabalho de cordas em um contexto de música de concerto, forte presença do violino, aplicadas com o mesmo critério que ROSALÍA usou em Lux, o que diz muita coisa). E o resto talvez nem valha a pena mencionar, a não ser “Dance No More”, que até pegaria bem se fosse lançada em 2020, ao lado de Future Nostalgia de Dua Lipa ou de uma versão sem vida do já citado What's Your Pleasure? de Jessie Ware. Enquanto “Pop” é outra questão aqui envolvendo o título, que me faz pensar se Harry Styles beira a falta de criatividade ou a pretensão de atingir um ponto de grandeza disco-dance, mas, na realidade, acaba apenas por corresponder ao que soa como um movimento que… novamente… é pífio. E talvez esta seja a palavra que, no fim das contas, melhor descreva o álbum como um todo: sua completude de idas e vindas numa falha desmedida de referências à música pop lavada e centrifugada numa máquina que torna enxuto, desguarnecido, o que ela tem de melhor: o ritmo, o alegre ritmo.
Selo: Columbia / Erskine
Formato: LP
Gênero: Pop