Crítica | BRAT


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Todas as melhores características de Charli XCX podem ser facilmente encontradas em BRAT, disco que envolve a sua ação pelo melhor dos dois mundos: a música pop e a eletrônica.

Fazia tempo que não víamos uma movimentação tão grande com um lançamento. As redes sociais foram tomadas pela cor verde-limão, seja nas fotos de perfil ou em vídeos e fotos compartilhados. Parecia que tudo se resumia a uma única coisa: BRAT. Quando Charli XCX revelou a capa do seu novo trabalho, muitas pessoas se questionavam e até julgavam: por que uma arte tão simples? Um fundo verde-limão com uma única palavra em minúsculo e em baixa resolução. Mas de uma coisa a artista tinha certeza: ela queria incomodar. Seu novo álbum traz referências à cena rave ilegal de Londres, sendo descrito por ela como o mais conflituoso e afrontoso. E de fato, BRAT é isso e muito mais.

Desde “Von Dutch”, primeiro single dessa nova era, Charli buscou nos conduzir por um lugar de puro choque, um sentido estático que somente ela saberia como fazer. Na canção, somos imersos em um irresistível dance-pop, transportados diretamente para os fervorosos clubes noturnos. É uma celebração arrojada de sua própria influência e popularidade, carregada de uma provocação estimulante. Os outros singles seguem essa mesma trilha, sem desvios ou qualquer enrolação temática. “Club Classics”, por exemplo, exalta o desejo de se perder nas luzes do clube, uma experiência eufórica que nos transpõe para um estado de êxtase em que o mundo exterior se desvanece. “B2b”, por outro lado, restaura uma certa introspecção, baseada na dualidade de uma relação que ficou para trás ao mesmo tempo que expressa uma relutância em regressar a um passado já vivido — é a pura emergência de buscar uma noite de afago na adrenalina. Em “360”, percebe-se a ideia de mover o ouvinte por entre batidas marcantes, vibrantes e proeminentes, que se destacam pelo aceno synthpop estilo Charli; a canção emana uma intensidade palpável e nos envolve numa experiência que desperta, porque não, os sentidos da vida.

O lado mais introspectivo também se rebela em “Sympathy is a Knife”, uma faixa intensa que reflete a busca desesperada por alívio e compreensão, salientando, como fio, a volatilidade do diálogo e o desejo de fugir da dor. Em “I might say something stupid”, curta e contundente, Charli se questiona sobre pertencimento e a sensação de ser apenas mais uma, enfatizando seu conflito interno. Já “Talk Talk” transborda frustração, anseio e intensidade, todas transmitidas através de batidas que se entrelaçam com os versos constituídos por uma linguagem solúvel e espontaneamente pop, sem esforços para soar adequada — é o melhor de Charli XCX em seu estado puro de criação.

Em “Everything Is Romantic” um lugar mágico tem o poder de transformar e inspirar amores contínuos, ou melhor dizendo, mundanos. “So I”, numa contrapartida agridoce, é uma tocante homenagem a SOPHIE (impossível não se emocionar). A canção alude a “It’s Okay To Cry” da artista, que nos deixou em 2021, em que ela canta “não há problema em chorar”, e Charli descreve: “Quando estou no palco, às vezes eu minto, digo que gosto de cantar essas músicas que você deixou pra trás. E eu sei que você sempre disse: "Tudo bem chorar”. A melodia é o foco principal, com um piano moderado expressando as emoções do tributo.

No início do mês passado, Charli falou sobre o sucesso de “Royals” de Lorde e sua própria insegurança em entrevista à Rolling Stone UK:

“Ela gostava da minha música. Ela tinha cabelo grande; eu tinha cabelo grande. Ela usava batom preto; eu usava batom preto. Você cria esses paralelos e pensa: “bem, poderia ter sido eu”.

Esse episódio pode ser notado na canção “Girl, So Confusing”, em que Charli explora a complexidade de seu relacionamento com uma figura que pode ser vista como rival ou amiga. É bastante simbólico notar como tais passagens, essencialmente públicas, se tornam um ponto de discussão vultoso feito com muita habilidade. É desse modo, também, que Charli intercala o seu próprio fazer artístico, como em “Apple”, em que a busca por um novo caminho e o desejo de romper com tudo evidenciam os traços de frustração. “Mean Girls”, por sua vez, possui uma camada de complexidade adicionada à trama, atingindo questões sobre a verdadeira identidade e as emoções conflituosas. Em contraste a tudo o que presenciamos até aqui, “I Think About It All the Time” se dispersa através de uma construção tão tediosa, que se não soubéssemos que é uma música de Charli XCX, facilmente poderia ser confundida com uma canção qualquer escrita por Taylor Swift.

Por fim, a mesma energia que sentimos em “360”, que abre as portas a uma longa noite de diversão, é replicada em “365”, em que a festa parece não ter fim — e na verdade não queremos que ela termine. Aqui a sensação de cansaço é inexistente, a diversão continua ininterrupta, capturando perfeitamente a graça de uma festa sem fim e a euforia de um ciclo interminável de liberdade e diversão. É uma peça feita com um legítimo tato de percepção e idealização, é impossível contradizer o fato de Charli ser uma das melhores artistas da música pop e como ninguém, absolutamente ninguém, parte rumo ao desenfadamento como ela.

Selo: Atlantic, Asylum
Formato: LP
Gênero: Pop / Eletrônica, Electropop
Brinatti

Graduando em Ciências Sociais, com ênfase em Antropologia e Sociologia, 27 anos. É editor e repórter do Aquele Tuim, em que faz parte das curadorias de MPB, Pós-MPB, Música Brasileira e Pop.

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