Crítica | RENAISSANCE (2022)


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RENAISSANCE é o grande acontecimento pop dessa década.

Atualmente, é impossível não delegar à Beyoncé uma posição de lenda na música. Por mais de vinte anos de presença na indústria fonográfica, seu fazer artístico e persona pública se moveram por diversas frentes, mas o que seus trabalhos mais atuais nos revelam é que cada passo da cantora é uma construção coletiva de projetos magnâmicos e de visão em impacto cultural: foi dessa forma que álbuns como BEYONCÉ (2013) e Lemonade (2016) mudaram a dinâmica da sua carreira para sempre.

Porém, no longo intervalo entre 2016 e 2022, Beyoncé se transformou inteiramente. Ela esteve empenhada em outros grandes projetos, como Beychella/Homecoming (2018/2019) e The Gift (2019/2020), mas os olhos do público não conseguiram acompanhar grande parte dessas mudanças. Não sabíamos, mas uma trilogia de álbuns estava sendo formada em primeiro plano, que estaria composta por projetos que tratariam de gêneros e movimentos musicais historicamente embranquecidos, onde o crédito e a criatividade partiriam, em grande escala, de seus verdadeiros protagonistas e precursores novamente. RENAISSANCE, lançado no segundo semestre de 2022, é a primeira etapa, com a música house como grande foco.

Em outras mãos, RENAISSANCE poderia ter sido apenas um produto super competente do seu tempo. A era do escapismo na música pop ocidental, propulsionada pelo período de isolamento da pandemia de Covid-19, ganhava novos arranjos na medida em que as restrições se abrandaram e a vida noturna nas grandes metrópoles retornava. É natural que surgisse o desejo por uma trilha sonora que demarcasse esse novo momento, mas olhar o álbum apenas por essa ótica é muito simplista.

RENAISSANCE é a reverência máxima de Beyoncé ao house e ao ballroom, mas, mais que isso, é a sua expressão de respeito, admiração e orgulho à cultura da comunidade LGBTQIAP+ preta. Para fazer o álbum, ela se debruçou com afinco nesses universos, estudando a história do gênero e entendendo as minúcias e particularidades de suas expressões, artísticas ou não. O resultado é um agrupamento insano de 16 canções pop gigantescas, que soa totalmente contemporâneo e demarca uma nova era para a artista. É um álbum sobre amor, sexo, identidade, orgulho e paixão. Ele tem uma natureza ambiciosa e nada modesta, que tem passe livre para a opulência e para extravasar, afinal essa é a sinergia vital que o movimenta. O refrão de “ALIEN SUPERSTAR” ilustra bem o espírito:

“I’m too classy for this world, forever, I’m that girl
Feed your diamonds and pearls, ooh, baby
I’m too classy to be touched, I paid them all in dust
I’m stingy with my love, ooh, baby
I’m (U-N-I-Q-U-E)”

São músicas que articulam o house com uma outra infinidade de gêneros e expressões sonoras: disco, funk, afrobeats, miami bass, hip-hop, ballroom, R&B e por aí vai. É, dessa forma, perceptível que elas foram moldadas com afinco e são constituídas de diversas camadas, técnicas e simbólicas. Uma parte desse efeito se dá pela curadoria afiada de samples e interpolações que estão espalhadas pelo registro, como, por exemplo, a melodia de “I’m Too Sexy”, de Right Said Fred, no refrão de “ALIEN SUPERSTAR”, elementos de “Miss Honey”, de Moi Renee, no final de “PURE/HONEY” e a própria faixa final, que provavelmente será a melhor reinterpretação de “I Feel Love”, de Donna Summer, que você ouvirá na vida. É, também, pelo holofote genuíno que existem com os próprios artistas da cena, que estão trabalhando em todas as frentes da obra: dois grandes exemplos são a parceria ávida de Grace Jones em “MOVE” e a colaboração com Honey Dijon, uma lenda da cena house de Nova York e que participou da produção de “COZY” e da já citada “ALIEN SUPERSTAR”.

Porém, o principal motor para que esse projeto seja tão importante é a sua significação, o que ele se propõe enquanto artefato cultural. Tratar, individualmente, da genialidade e do artesanato de faixa por faixa seria inviável por aqui, mas é necessário falar do elemento primordial que define RENAISSANCE e ajuda a entender esse aspecto: o querido Uncle Johnny. Johnny Knowles, o tio gay de Beyoncé, foi uma figura fundamental na criação da artista e que a inspirou para a vida inteira. Ele ajudou a sua sobrinha a moldar sua visão sobre moda, arte, resiliência e sobre o mundo e, como ela já disse na dedicatória do disco, ele é “o gay mais fabuloso que já conheceu”. É notável que ele é a alma e a origem de RENAISSANCE, como declama em “HEATED” em meio a leques fervorosos: “Uncle Johnny made my dress / That cheap Spandex, she looks a mess”.

Passados quase dois anos de seu lançamento e com COWBOY CARTER a caminho, já podemos mensurar a magnitude do sétimo álbum de Beyoncé. Muito mais que um gigantesco frisson midiático e cultural, que ultrapassou os limites da música, ele é essencial para entender a seara espinhosa do que os grandes artistas podem oferecer para celebrar a verdadeira criatividade pulsante das identidades, por ora, marginalizadas. E se tratando de Beyoncé, esse é só o começo.

Selo: Parkwood
Formato: LP
Gênero: Pop / House, Ballroom

Felipe

Graduando em Sistemas e Mídias Digitais, com ênfase em Audiovisual, e Estagiário de Imagem na Pinacoteca do Ceará. É editor do Aquele Tuim, contribuindo com a curadoria de Música do Continente Africano.

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