
★★★★
Um dos aspectos cruciais da produção DIY na década de 2020 até agora no que se refere ao campo da eletrônica experimental, essencialmente a produzida em solo brasileiro, é a tensão do incômodo como parte de uma ideia de não conformidade com esse mesmo aspecto em outros contextos. Veja bem, até misturam o sentido classificatório do noise com o ruído puro, a forma de barulho que se dá pela mescla, supressão ou modelagem de estéticas que se aproximam em algum nível, ainda mais as que têm como influência nomes de vanguarda do pop, como a venezuelana Arca. Mixtape da Prensa Hidráulica, de MINTTT, parece surgir de uma amálgama pós-inconformista de tudo isso, e o título, Prensa Hidráulica, pressupõe de maneira inteligente a remodelação do seu som.
São fragmentos vocais, amostragem, colagens variadas, memes e uma estrutura que favorece a temática de desamparo do conforto – e da conformidade em oposição (NÃO SOU DJ, exclama a produtora). Dizer isso pode soar repetitivo, mas o trabalho de MINTTT para fincar essa sua semilinguagem é feito com um martelete em potência máxima, pressionado contra uma parede de concreto puro, sem armações ou espaços ocos. A abertura, “Lobotomia Extrema”, é o cartão postal imperfeito disso tudo, porque se fosse perfeito não chegaria perto de soar estranho o suficiente em termos de estrutura. A faixa tem um design de som atordoante, irritante pra ser mais claro, mas é justamente isso que a faz servir como uma introdução certeira do que MINTTT tem a nos oferecer ao longo das outras 9 músicas.
São vocais perfurados por texturas que se dilatam e contraem como fluido newtoniano: ora rígidas como pedra, ora molengas como areia movediça. São batidas estranhas que entram pelos ouvidos como socos, e no final recorre ao funk como ponto de ruptura com o uso desses beats. É daí que surge essa mistura que, de certo modo, é constante no registro, pois é feita com uma legitimidade material, uma vez que é impossível ser inconformado – nesse sentido, com a própria realidade – hoje em dia no Brasil sem fazê-lo ao lado do funk, a música que menos se conforma no meio de existir, de ser música.
Há uma clarividência dessa flexão temática com o uso dos fragmentos vocais, que vêm de uma técnica de colagem pouco explorada na cena nacional, muito próxima de gêneros como glitch e epic collage, no guarda-chuva do que chamam de Latin Electronic. Por isso toda essa cacofonia, que mistura funk e até mesmo eletrônica formal (as caixas em “Cidade Maravilhosa”) é muito interessante. Esses momentos com amostragem à beça, cortes e recortes de outras faixas, memes e etc., apesar de intenso no uso, não chegam a ser confusos, embora sejam propositalmente densos. “Hoje Eu Vou Zoar” é a melhor diante desse apreço técnico que inexiste na vida real, pois parece uma completa ilusão. A música ainda reúne a tendência política assumida por MINTTT. É pop. É experimental. E brilha com o outro destaque, “Os Porcos Tão No Cio”, parceria com MAKHNO. É especial de formas que não cabe descrição, uma música que até faz sentido em seu modelo, tem letra, som, mas vai para caminhos que anulam por completo o que cada um desses elementos querem dizer. Inconformismo e inconformidade em resumo.
Selo: Independente
Formato: Mixtape
Gênero: Experimental