
★★★★
Los Thuthanaka foi um marco histórico para a música, já é possível dizer isso com toda certeza. Um dos aspectos mais interessantes do disco, para além das técnicas eletrônicas fantásticas de Chuquimamani-Condori, eram as “intervenções” (que soavam invasivas, mas aconchegantes e necessárias) da guitarra de Joshua. Em Anata, é possível visualizar ainda mais desse trabalho único que ele faz com a guitarra.
Assim como nos outros projetos do artista, ao colocar a guitarra e a estrutura do rock sob a forma da música indígena andina, naturalmente é impossível que o álbum não soe como algo único. Entretanto, mesmo na forma técnica, há um apreço pelo novo, seja na produção exagerada, que remete ao noise rock ou, por exemplo, em “Mallku Diablón”, que começa como um country blues e se transforma em uma prece (afinal, o álbum é dedicado para uma celebração andina, chamada Anata) psicodélica de barulho e repetição.
“Repetição” é extremamente importante para esse disco. Em Los Thuthanaka, já era perceptível o apreço por esses formatos circulares na estrutura musical. Se a maioria das músicas populares seguem uma certa “linearidade” estrutural, é possível ver o que há de revolucionário em Anata mesmo nessa simplicidade de estrutura. A própria canção em si se torna capaz de mobilizar uma outra percepção de estrutura por causa disso. Se a inserção do perspectivismo nas ciências humanas permitiu aos historiadores dar um basta definitivo para a percepção de tempo linear, Joshua Chuquimia Crampton realiza o mesmo para a nossa condição enquanto ouvintes, críticos e criadores de música.
Em mais uma conexão com Los Thuthanaka, as temáticas queer também permanecem nas sutilezas dos nomes das músicas, e, ao mesmo tempo, é importante notar essas transformações estruturais e instrumentais nas canções como mudanças em si. Ao relacionar com o trabalho Chuquimamani-Condori, a conexão e apreço pelo country não é meramente uma questão de ancestralidade, mas também de transformar um gênero (musical) que é considerado dado de uma forma subversiva, anti-cultural. E não é isso que temos falado sobre a possibilidade das micro-revoluções de gênero (corpo), um tratamento anti-cultural, uma transformação radical?
Mais uma vez o trabalho de Joshua Chuquimia Crampton segue como um dos mais importantes, inovadores, únicos e bonitos da atualidade. É um artista que consegue, por meio da linguagem da música, comentar e criticar o hoje, o presente, passar ideias por meio da música que estão vivas para todos os que procuram. E, no geral, é exatamente isso que significa ser um artista contemporâneo.
Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Experimental / Rock Experimental