
DJ K inicia um movimento muito importante para a cena com o lançamento deste projeto solo, cuja finalidade é financiar a primeira empresa independente de funk mandelão sem o controle de grandes empresários por trás dos bastidores. Esse tipo de ação é importante não só para a visibilidade dos outros 10 artistas envolvidos na sociedade, mas também para o movimento em si, pois mostra a capacidade das pessoas de dentro privilegiarem quem sempre esteve apoiando, movimentando e fazendo acontecer o que conhecemos como funk mandelão. A parte mais interessante nisso tudo para mim (como avaliador de álbuns de um contexto cultural de pouco prestígio crítico e social) é poder reforçar que o funk tem muita complexidade estética, profundidade narrativa e valor artístico, o que não falta em Favela project.
Quando falamos de funk mandelão, estamos, na realidade, encaixando vários subgêneros do funk experimental/menos mainstream em um termo guarda chuva, mas como o próprio DJ K afirma em sua tag mais que certeira, nesse caso, não estamos mais falando de produção musical e sim de bruxaria. A bruxaria está presente no álbum como uma espinha dorsal do projeto, que estrutura tão bem as nove faixas inéditas do artista que não precisamos de muito mais que isso para a identificação de um trabalho consistente e interessante como esse. Podemos até perceber a influência do funk automotivo, como na mixagem do som nas duas primeiras faixas, que parecem sair diretamente de um aparelho de som em algum carro parado num baile de favela, no entanto, não temos a interferência de outros gêneros da eletrônica, trap ou até mesmo da música pop como ocorre na tendência atual — é um álbum de funk bruxaria em sua essência.
A partir dessa premissa, podemos notar a consistência na forma da composição das músicas, o que nos faz observar que o conteúdo também segue muito bem amarrado dentro da proposta. Na plataforma de financiamento virtual disponibilizada pelos artistas para a fruição do álbum, podemos encontrar breves informações e comentários nas faixas deixados pelo artista, e, em determinadas delas, aparece a intenção narrativa por trás de sua concepção, o que amarra muito bem a relação entre forma e conteúdo do trabalho (não que para fazer sentido ou trilhar uma narrativa, uma música precise de comentários dos artistas envolvidos, mas nesse caso é interessante observar o cuidado na seleção dos beats com a elaboração de novos significados).
As temáticas do álbum giram em torno da experiência do DJ com a favela paulista, vezes apresentando histórias verídicas de algum colega de forma generalizada, como em “BODE DEPENADo”, ou então falar sobre a experiência entorpecedora da música no contexto dos bailes, retratada em “AUTOMOTIVO TRAVA NOIA”. O grande triunfo nisso tudo, está na criação desses significados através da batida e de uma experiência auditiva sem igual, com a formação de uma atmosfera única elaborada através do tratamento dos graves que constroem uma verdadeira paisagem sensorial e auditiva de um baile de bruxaria com toque automotivo. Como destaque dessa ambientação temos a faixa “BRUXARIA EXTERMINA MUNDOS”, uma faixa que fala sobre o enfrentamento do sistema de quem vive na periferia e que constrói esse caos sonoro no decorrer dos seus grandiosos 2 minutos e 25 segundos.
Essa faixa me deixou pensando por um bom tempo sobre o conceito de caos, pois, não se trata exatamente de uma bagunça de elementos, ou excesso de ruídos de forma desorganizada. Na verdade, a sensação de caos consegue ser retratada através de uma combinação de ideias harmoniosas dentro de uma lógica contrastante de elementos sonoros. Temos um sample de música clássica com um violino estridente e a ritmização do funk com múltiplos vocais intercalados em sincronia com os beats automotivos, tudo isso encapsulado por um grave que vibra junto de todos os outros elementos, formando uma atmosfera gradualmente hipnótica. Uma faixa inesquecível! Em diversos outros momentos temos o reforço de elementos da bruxaria, como a risada doentia em “BATIDA INTERCONTINENTAL” intercalada entre beat fino e o grave característico do projeto, em outro momento, a feitiçaria musical parte para um lado mais tribal como em “ATABAQUE DA INFIDELIDADE”, que mistura um sample de flauta da música ‘Criminal” de Britney Spears com o atabaque brasileiro utilizado de forma ritualística.
De uma forma geral, o trabalho apresenta poucos elementos em cada faixa, mas sem soar minimalista. Isso porquê DJ K consegue tratar muito bem todos os barulhos envolvidos na produção, explorando-os em sua totalidade, desde à combinação com outros elementos presentes nas músicas à caracterização desses recursos para dar profundidade na ambientação do funk bruxaria, sem precisar apelar para artifícios já muito conhecidos pelo público do funk mandelão, como o tuim ou o beat bolha — nada contra ambos, sou forte apreciador, mas aqui estamos falando de um álbum mais purista e original se tratando de tendências de produção musical no funk, evidenciando que o DJ K é na verdade um grande mago da produção musical.
Selo: Independente
Formato: LP
Gênero: Funk / Funk Mandelão