Crítica | Don't Be Dumb


★★

O quarto álbum de A$AP Rocky, Don't Be Dumb, é impressionante e intencionalmente incômodo. Depois de quase oito anos desde TESTING, além dos diversos acontecimentos em sua vida pessoal, que repercutiram na mídia, os singles lançados no decorrer desses anos alimentaram o que poderia vir a ser o novo disco. É impressionante o universo que Rocky constrói nessa nova era, brincando com os alter-egos, explorando novos estilos musicais, unindo sua narrativa pessoal (moda, filhos, espetacularização da mídia) a referências que vão do expressionismo alemão a jogos de PlayStation2, com direito à assinatura de Tim Burton para construir todo o conceito e toda a identidade visual do álbum. Esse esforço ressoa em parte nas letras e sobretudo na construção sonora das faixas.

Como eu disse, “em partes”, pois mesmo não abrindo o álbum da melhor forma, “ORDER OF PROTECTION” talvez soe familiar, já que possui uma sonoridade reproduzida inúmeras vezes no rap através do uso incessante de batidas densas de 808, facilmente reconhecidas no contexto do trap. Felizmente, é seguida pela ótima e divertida “HELICOPTER”.

A resposta para Drake em “STOLE YA FLOW” é fraca, pra não dizer ruim. Entretanto, Don’t Be Dumb nos surpreende em faixas como “NO TRESPASSING”, “STFU” e a despretensiosa “WHISKEY (RELEASE ME)”, colaboração com Gorillaz e Westside Gunn. Já “NO TRESPASSING” nos mostra o rapper em sua melhor forma, com versos ousados e afiados que remontam a um A$AP de uns 15 anos atrás conectado a um beat pulsante.

“STFU” é uma faixa que tem tudo a ver com as ideias apresentadas por Rocky no conceito e na estética do álbum: é ousada, agressiva e provocativa; sua sonoridade é um híbrido de metal e hip hop, e o feat com o coletivo musical Slay Squad, grupo californiano que produz uma mistura de rap, hardcore e death metal, foi o match perfeito. Já ficou claro que A$AP pretende cada vez mais se aventurar em estilos como o indie, o punk rock, o alt pop e até o metal, e ele tem se saído bem nessas investidas, pois “PUNK ROCKY”, lançada como primeiro single dessa nova era, é a prova disso: um som psicodélico muito bem trabalhado, em que ele canta sobre estar desiludido acompanhado de guitarras e baterias bem marcadas, riffs e backvocals.

Em “AIR FORCE (BLACK DEMARCO)” é quase como se A$AP quisesse nos dizer que ele está no controle totalmente consciente de si e de seu potencial, transitando com fluidez entre os estilos musicais e mantendo sua qualidade vocal, sua lírica e sua personalidade. A faixa explica muito bem o porquê de Don't Be Dumb ser impressionante e intencionalmente incômodo. Mas nem sempre esse esforço funciona. “ROBBERY” parceria com a rapper Doechii, e “THE END”, colaboração com will.i.am e Jessica Pratt, são faixas cansativas e que servem mais como um tapa buraco para preencher espaço na tracklist do que contribuindo substancialmente com algo.

No geral, Don’t Be Dumb é um projeto ambicioso e muito bem produzido, mesmo apresentando problemas, não tem seu brilho apagado e marca em grande estilo a volta de A$AP Rocky.

Selo: A$AP Worldwide/ RCA Records
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Rap
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