Crítica | Language At An Angle


★★★★

Descrito como um poema sinfônico em oito partes, Language At An Angle marca a reestreia de Sam Wenc na música e seu primeiro lançamento sob o próprio nome – anteriormente conhecido como Post Moves. Mais do que se deter nos detalhes do que Wenc busca expor em sua nova empreitada, é preciso enxergar o disco como fruto de um processo de especialização que o autor almeja atingir por meio de elementos que formam não apenas sua bagagem artística, mas também a maneira como o som se manifesta aqui através deles.

Wenc trabalha a linguagem como uma estrutura maleável que pode – e deve – sofrer mutações conforme o contexto em que se cria, sem surgir do zero, mas a partir da ideia de reviver e resistir, algo semelhante ao que ele próprio fez ao assumir outro nome. Não à toa, o disco parece ir e vir por diferentes estados emocionais, explicitados por meio da manipulação de uma estrutura próxima da improvisação livre, com recortes de música instrumental do Leste Asiático e sob o sobretom de técnicas de drone que nomes como Kali Malone dominam. E se Malone fez do órgão a base de sustentação de sua técnica inconfundível, com foco quase obsessivo na afinação tonal, Wenc faz do pedal steel a sua maior especialidade.

É nítido como ele domina e encaixa o som produzido por esse instrumento ao longo do disco, sobretudo nos momentos em que a exploração do ritmo tende a se intensificar, tornar-se mais alta e expansiva. É o caso das faixas “Blue Consonance” e “Clear of Itself”, que funcionam quase como opositoras derradeiras de “Threshold Arises”, um dos grandes destaques do álbum por reunir o que há de melhor na busca orgânica de Wenc por novidade e no tratamento da linguagem – aqui, a música, a experimentação – como um organismo vivo, que ganha forma toda vez que é pensado e modificado a partir de diferentes perspectivas. A faixa surge em uma onda de tom mínimo, quase rastejante, e evolui gradualmente conforme melodias criadas a partir de dedilhados de piano, cordas, percussão e pequenos sons lúdicos que colidem entre si como vidro: delicados, mas agudos, assumindo as rédeas de onde a atmosfera meditativa parece querer chegar.

É nesses instantes que se revela o excelente trabalho de textura de Wenc diante de dispositivos, instrumentos e sons distintos, que, ainda assim, operam em plena sintonia. Na peça seguinte, “Staying”, sons analógicos introduzem uma construção de mundo melosa e latente que se estende por oito minutos. Aos poucos, cordas sustentam notas mais firmes, criando uma espécie de estrutura new wave que redesenha a aproximação de Wenc com a improvisação livre, assim que instrumentos de sopro – especialmente o clarinete – surgem para contornar os ângulos esparsos da música, que, como todas aqui, cresce sem ter exatamente para onde ir. É quase como uma planta na janela lutando para acompanhar o sol, vendo suas folhas pequenas e frágeis moverem-se lentamente. E nós fazemos o mesmo: movemo-nos para acompanhar até onde esse som onírico e reconfortante tende a nos levar.

Compre: Bandcamp
Selo: Lobby Art Editions
Formato: LP
Gênero: Experimental / Improvisação Livre

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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