
Pode não parecer, mas ainda há muita discussão em torno do que é o minimalismo na música, seja enquanto gênero, estilo livre ou mera classificação. Embora se saiba que o minimalismo é uma ramificação da música clássica moderna, desenvolvida nos Estados Unidos em meados da década de 1960, sua aplicabilidade e mescla com a produção contemporânea enfrentam diferentes interpretações, em decorrência da maneira como a música experimental expandiu esse campo classificatório. Não à toa, há quem associe o gênero a vanguardas como a música ambiente, o drone e outras vertentes. Por esse motivo, o trabalho de Erik Hall assume contornos que vão além de sua idealização original.
Seu novo álbum, Solo Three, é a parte final de uma série que o compositor desenvolveu como parte de sua passagem norteadora pelo minimalismo, na qual reinventa uma seleção distinta de obras que se tornaram clássicas do gênero, prestando homenagem a nomes como Steve Reich, um de seus pais fundadores. Hall, porém, não se contenta em apenas reimaginar ou trazer essas composições para o presente: ele o faz como quem, acima de tudo, demonstra audácia e talento ao propor uma visão ainda mais contemporânea dessas músicas que ecoam por gerações.
Trata-se de um trabalho árduo: mexer com aquilo que, em tese, está canonizado, que parece irretocável e que, se perturbado, costuma render pano para manga. Hall não se intimida e por isso desliza seu dedilhar pelas teclas de modo a criar algo próprio, como faz na peça “Music for a Large Ensemble”, de Steve Reich. Ao longo de mais de quinze minutos, Erik percorre dezenas – quiçá centenas – de notas em busca de variações e toques lúdicos que recompõem o efeito que a faixa tende a provocar, por meio de um método que opera como uma “corrida caleidoscópica” de melodias que se sobrepõem e padrões rítmicos que parecem viajar pelos céus. É nítido o tratamento que o compositor impõe sobre momentos como esse, como se dissesse que sua visão, por mais interessante que seja, jamais eliminaria a sensação que a composição original foi capaz de alcançar.
O resultado é brilhante em níveis que suscitam a necessidade de existir um material como este, sobretudo por ajudar a compreender do que se trata o minimalismo. Isso, no entanto, não faz de Solo Three um disco-manifesto ou um almanaque, mas uma bela e justa homenagem ao som que ocupa a linha de frente de uma visão nada endêmica da música de vanguarda estadunidense. Trata-se de um trabalho que reflete sobre a força que esse tipo de produção possui na atualidade e seu impulso exploratório, que vai além de reafirmar o que já existe, propondo novas objeções e novas oportunidades de expandir talvez a melhor música dos nossos dias.
Selo: Western Vinyl
Formato: LP
Gênero: Experimental / Minimalismo