
O neo-soul carrega muito da sofisticação que as músicas de raízes negras, especialmente aquelas articuladas com o R&B, sempre propuseram em termos de trocas e mesclas estéticas. Nesse campo, Ari Lennox sempre chamou bastante atenção. Seus discos são marcados por melodias sustentadas por instrumentos orgânicos e por acenos que vão do jazz ao hip hop, e tudo isso sempre funcionou graças à sua facilidade em conduzir esses elementos por meio de vocais e de uma presença igualmente sofisticada, além de criar bons refrões, como toda artista pop sabe fazer.
O novo álbum de Lennox, Vacancy, no entanto, se distancia do que ela já fez, ao mesmo tempo em que se ancora justamente em tudo aquilo que trabalhou anteriormente em Shea Butter Baby (2019) e age/sex/location (2022). Trata-se de um disco mais acessível, que aposta em ganchos mais esparsos e sintéticos, além de abordar temas próximos do léxico comum e amplamente explorado por artistas contemporâneos de R&B. Justamente por isso, acaba ficando aquém da sofisticação que se construiu em torno dela como parte integrante de sua identidade, algo que suas investidas no smooth soul tornaram ainda mais indissociável.
O erro está em supor que, por conta dessa mudança aparente, Vacancy soe ruim. Não é o caso. O álbum consegue ser dinâmico ao explorar sonoridades e performances vocais mais pop, como em “Soft Girl Era”, faixa que parece viajar por uma paleta vocal tão extensa quanto aquela que Mariah Carey explorou em sua emancipação dos anos 2000, além da batida lúdica de latinha ao fundo e do mini coral de apoio, que criam um espécime próximo de “Motivation”, de Normani. É uma das provas de como Lennox ainda mantém firme sua habilidade de trabalhar o R&B em diferentes registros, seja no mais despretensioso, como aqui, seja no mais requintado, como já fez em faixas de alto calibre como “Waste My Time” e “Leak It”.
Essa comparação, no fim das contas, evidencia que Ari Lennox permanece essencialmente a mesma, e que Vacancy está longe de romper com o que ela tem de melhor a oferecer em suas abordagens centradas na música de raízes negras. Talvez o fato de adentrar um espaço mais acessível e comum dentro do gênero retire parte do contexto que suas obras carregavam como produtos diferenciados, mas isso, na prática, não muda absolutamente nada. É bem melhor o desafio de querer mudar do que manter-se presa à própria zona de conforto, ainda que essa zona seja, paradoxalmente, o melhor de tudo o que ela já trabalhou.
Selo: Interscope
Formato: LP
Gênero: R&B / Pop, Soul