
★★★★
Talvez, se antes existisse uma compreensão mais ampla de como se dá a mutação de estilos espalhados por uma geografia gigantesca, algo que ultrapassa com folga a América Latina, GÍRIA seria menos sobre techno ou funk, menos ainda sobre a simples mistura de ambos, e mais sobre aquilo que RHR, Roniere Oliveira, DJ e produtor de Diadema, assinaria sem precisar flexibilizar o que essa mistura pode significar. Ele está global.
Seu EP de estreia pelo selo PAN, GÍRIA, trata de manter uma compreensão pessoal e, em termos morfológicos, do que a gíria simboliza no português brasileiro e em suas variações. É sobretudo uma forma que ele encontra de expressar sua ligação com o seu contexto de criação: “Minha música sempre foi influenciada pela capoeira e pelas tradições percussivas brasileiras”, explica na página do EP no Bandcamp. Mas é possível ir além, como a própria acapella de “SÓ ENVOLVIDO” pressupõe: parte de uma fixação do que o funk, e o uso constante da variação urbana que conhecemos dos três continua nele, ainda comporta, e de sua ruma dentro de um aspecto que transcende o som e justifica a travessia para terrenos tão férteis para o símbolo que se cria aqui. “Isso é só de bandido / Vai colando só quem é envolvido”, ouvimos do trecho marcante da letra de “Medley dos Envolvidos”, de MC GH Magrão.
O disco, curiosamente, trata de uma compreensão mais ampla da música eletrônica e de seus pares de produção local (a exemplo do funk), mas sem depender de uma cena específica para se fixar. “Sou fascinado por design sonoro intenso: mixagens agressivas, engenharia poderosa, texturas que carregam um senso de território dentro delas”, ele diz. Não é como se GÍRIA, assim, se enquadrasse num único universo geográfico de estilos, ou mesmo num espaço delimitado por seus apontamentos estéticos que pegam rabeira nos grandes destaques da dita eletrônica global – que se distingue da mera “música global”, classificação usada de forma a limitar expressões além das que se inserem no contexto ocidental de música pop inclusive – espaço que pode agrupar nomes que vão da América Latina (Dj Babatr, Verraco e todo o selo TraTraTrax) até as manifestações da batida do selo Príncipe, de Lisboa.
A forma como ele tenciona o funk diante de socos e pontapés de graves, que até podem soar próximos do que alguns DJs brasileiros de funk estavam fazendo ano passado, num flerte maior do gênero com a eletrônica formal, dialoga mais com algum corte de bateria engenhosamente feito a longa distância do que com a própria marcação, clave e beat padrões do funk. Seus experimentos no techno, por exemplo, se expandem e surgem com chocalhos e batidas tão duras quanto, de alguma forma, sensíveis ao tato.
“INNA COMBINATION”, com BIGMAMMAZUKI, constrói o terreno exato dessa flexão de gíria, o termo: contexto de transmutação e sensibilidade. Não é que a faixa soe pop, há um sombreamento constante, fomentado por quase uma centena de batidas comandadas por baterias, caixas secas e uma deliciosa mistura de hardstep, talvez descrita com maior precisão se encontrarmos nela relações e pequenos floreios de jungle techno.
O EP se mantém assim até “SYRINX”, parceria com Skrillex. As acapellas de funk são acordadas por um dubstep familiar, que ecoa em viradas viciadas em raves, aqui, num contexto de rave de rua. É outro instante de diálogo com o que GÍRIA e gíria podem significar, ainda que os signos sejam tão estabelecidos que dificilmente a marcação geográfica do som, amplo demais, consiga ditar o rumo do que se entende ao ouvir a música. Para nós, um dub-funk-rave. Para eles? Apenas mais um prato cheio servido pelo cozinheiro exímio que é RHR.
Selo: PAN
Formato: EP
Gênero: Eletrônica