
★★
Wuthering Heights é basicamente a trilha sonora do filme de mesmo nome, adaptação do clássico de Emily Brontë e dirigido por Emerald Fennell. O fato de surgir na era pós-BRAT, em que Charli escancarou pro mundo sua veia artística meio kirsch e meio irreverente, além da sua personalidade chatinha, não é algo irrelevante. Não é como se ela não se levasse a sério também, mas o que Charli escreve e produz quase sempre recebe um efeito pop suspenso de qualquer coisa que siga o mesmo caminho. Por isso, os instantes aqui cuja melodia se dá por instrumentos de concerto não buscam ser o pop que ela faz, sei lá, desde quando estreou. É como se, por mais incrementado de elementos extras que sua música fosse, mais xcx ela é. Esse benefício transforma uma mera trilha sonora em um disco de música pop completo.
Seus temas, ardentes, conversam muito bem com os refrões e a produção um tanto sombria. Não se parece com nada que ela tenha feito, ao mesmo tempo em que soa familiar e próximo de tudo que ela já lançou. “My Reminder”, por exemplo, ocupa um lugar entre BRAT e True Romance, o mesmo efeito se dá em “Wall of Sound”, que se encaixaria perfeitamente em BRAT, como sendo uma prima próxima de “I might say something stupid” e “Everything is romantic”. A questão é que todas as letras de Wuthering Heights parecem se casar com o que a história estabelece, ao mesmo tempo em que funcionam como músicas perfeitas e que se encaixam como escuta longe dessas circunstâncias. “House”, com John Cale, se aproxima muito desse teor de dualidade, cuja letra – “I’m a prisioner, to live for eternity / I think I’m gonna die in this house” – viaja pela vida de Catherine e de Heathcliff em poucos segundos, expondo o estado de espírito de ambos quase que de forma literal. A voz de Cale, declamando tais palavras, causa arrepios. Ele é a Björk na “Berghain” da Charli.
O restante do disco, em suma, reflete os mesmos princípios que citei, orbitando o universo de Charli xcx enquanto parece tratar de forma mais interessante – dada sua forma de compor na música pop – algumas marcas que ocuparam o imaginário dos fãs de divas pop recentemente, no caso, a “música clássica”. O grande momento de tudo isso está em “Funny Mouth”, faixa que encerra o disco. Seus instantes dominados por violinos e vocais arrastados são interrompidos por distorções atmosféricas que dão um teor épico ao conjunto apresentado por Charli. É uma visão que se distancia do padrão de trilha sonora, ainda que retida ao que já podemos esperar dela e da sua finalidade de representar um filme.
Selo: Atlantic
Formato: LP
Gênero: Pop / Alt-Pop