Crítica | DJs Di Guetto Vol. II


★★★

Existe uma ironia quase poética no fato de que, num cenário onde a gente esbarra o tempo todo num esvaziamento crônico do que realmente significa a música dance na eletrônica — com produtores pesando a mão em produções exageradas ao extremo, entupidas de camadas estéreis num discurso desesperado de “olha o quanto isso aqui é dançante” —, a resposta mais revigorante venha diretamente de uma cápsula do tempo.

Quando o selo Príncipe tira da gaveta o DJs Di Guetto Vol. II, resgatando um compilado de arquivos perdidos e quase 100% inéditos lá de 2007, ele não entrega exatamente um álbum nos moldes convencionais, mas sim um absurdo exercício de estética que prova como a crueza e o minimalismo, quando têm intenção de verdade, carregam um poder de pista que a eletrônica moderna parece ter desaprendido a fazer.

A genialidade desse registro é que ele te engana na primeira audição, porque as faixas batem no seu ouvido parecendo verdadeiros blocos quadrados, densos, sem grandes texturas ou paletas de cores. A escolha por abraçar essa repetição nua e crua tem tudo para parecer a fórmula perfeita para o tédio, mas é aí que a mágica acontece: se você realmente se propõe a ouvir o registro e prestar atenção, começa a ver esses blocos estáticos sendo esculpidos bem na sua frente. Existe um tipo de “expansionismo” tímido e quase imperceptível correndo por baixo de tudo, onde a fusão de sonoridades e o uso nada convencional de batidas muito rígidas criam progressões hipnóticas que tomam conta do corpo, provando que é possível expandir as ideias do que é percussão sem precisar de pirotecnia.

E o que dá tanta força a essa estética é justamente a noção de que ela nasce de um ritmo sintético muito mais amplo e palpável do que qualquer coisa que as vanguardas ocidentais da eletrônica, sequer sonhariam em pensar. É uma visão de pista que, mesmo flertando com os padrões formais da eletrônica, acena o tempo todo para raízes muito mais orgânicas e batidas que transcendem a teoria, resultando num som que consegue ser primitivo e seco em sua essência, mas que, de um jeito quase inexplicável, reverbera de forma muito mais avançada e futurista do que a grande maioria dos lançamentos atuais.

No fim das contas, a gente precisa lembrar que essas músicas foram produzidas há quase vinte anos, então essa escolha radical pelo minimalismo não foi, em sua origem, uma intencionalidade contracultural ou uma resposta calculada para peitar o cenário saturado que vivemos hoje. Mas lançar isso agora é tão oportuno que DJs Di Guetto Vol. II acaba se tornando um documento histórico

Selo: Príncipe
Formato: Compilação
Gênero: Eletrônica

Antonio Rivers

Me chamo Antonio Rivers, graduando em História, amazonense nascido em 2006. Faço parte do Aquele Tuim, nas curadorias de Experimental, Eletrônica, R&B e Soul.

Postagem Anterior Próxima Postagem