
Durante praticamente toda a sua trajetória, Jack Harlow cultivou uma persona construída sobre carisma, confiança e leve arrogância juvenil, características que o colocaram na graça das massas assíduas do rap mainstream recente. Mas, personagens tão bem definidos raramente permanecem intactos por muito tempo. Em Monica, seu novo álbum de estúdio, Harlow se mostra muito menos interessado em expandir a sua persona pública e busca uma remontagem de si mesmo, com o amor e a vulnerabilidade emocional como ferramenta para refletir as suas próprias fragilidades.
Monica soa como uma continuação muito mais minimalista do seu antecessor, JACKMAN. Se em JACKMAN o rapper americano se utiliza de batidas que resgatam as raízes do hip hop para refletir sobre a sua ascensão meteórica e relações interpessoais, em Monica, Jack se utiliza do neo- oul, do jazz nova-iorquino e do R&B de vanguarda para questionar dores, vulnerabilidade emocional e fracasso em relações. O disco se mostra um passo muito mais a frente do que JACKMAN flertou em seguir, em que o rapper demonstrava rachaduras na sua autoconfiança performática.
A troca de rimas repletas de punchlines e confiança por vocais mais harmônicos não é mera escolha estilística, mas reflete muito mais na busca por amadurecimento pessoal e elucidação mental. O rapper, no dia do lançamento deste álbum, chega aos seus 28 anos, e é bastante comum neste período a crescente em questionamentos acerca de propósito e até da própria existência, como denota em “My Winter”:
Conventional wisdom tells me 'bout the grass/ That I'm a fence from/ We say things that you and I say. No sense of questionin' if it meant somethin / Symptoms surfacin' on my face / Can't hide a change in the momentum
Melodicamente, Harlow escolhe flutuar por instrumentais muito mais vivos, utilizando-se de instrumentos ao vivo e batidas com muito mais influência no soul moderno. Há quase nenhum sample aqui, e as linhas de baixo carregam a maioria das faixas, referenciando e fazendo uma bela homenagem a instrumentais minimalistas de R&B e clássicos com uma clara influência na estética Soulquarian. É como se, neste álbum, Jack abandonasse o carisma invulnerável anterior apresentado em sua carreira para expor um homem muito mais hesitante, introspectivo e à procura de uma validação emocional, distanciando-se da incessante busca por aprovação externa que álbuns como That’s What They All Say apresentava.
Monica não é uma personagem: é a projeção do amor que tem a capacidade de reconstruir um homem que passou anos externando a sua versão mais segura. “Prague” é um exemplo de um Jack permissivo, em que o orgulho de músicas como Dua Lipa decai por terra, com o minimalismo de apenas uma linha de baixo e um violino mostrando um Jack muito mais reflexivo sobre não saber lidar com emoções mais pesadas e pensamentos mais densos. E se antes a mídia tinha uma imagem charmosa e confiante da persona Jack Harlow, aqui ele faz questão de demonstrar a sua fragilidade e questionamentos internos. Em entrevistas, ele enfatizou a importância de usar seu nome verdadeiro em sua carreira musical e sentiu a desconexão entre quem ele realmente era e a imagem que a mídia estava começando a projetar dele.
Com o objetivo de mostrar o seu lado muito mais intimista e real, o álbum cumpre exatamente o que propõe, utilizando o amor, emoção universalmente reconhecível, como uma ferramenta não só de autoconhecimento, mas de reaproximação com o seu real cerne.O ponto alto do álbum é "All of My Friends", que conta com uma participação especial esplêndida de Ravyn Lenae e arranjos que ajudam a construir a atmosfera da música, a qual reflete a reflexão de Harlow sobre seu comprometimento energético com relacionamentos românticos e questiona se esse é realmente o caminho ideal.
Harlow demorou praticamente 3 anos para o lançamento deste projeto, algo incomum durante a sua carreira, lotada de mixtapes que tinham poucos meses de separação e álbuns de estúdio que tinham no máximo 1 ano de disparidade. O movimento de paciência e maturação ajuda na duração do álbum, que não passa dos 30 minutos, e vemos um Harlow focado e conciso em suas ideias em comparação a antigos projetos.
Mesmo com o risco calculado e com um ótimo resultado, Harlow sempre será sujeito a falhas, e vemos isso em sua performance vocal, que não beira o amadorismo, mas fica bastante aquém comparada aos instrumentais bastante melódicos e luxuosos, fruto de uma gravação extensa no lendário Electric Lady Studios. Monica não é revolucionário nem surpreendente pela sua qualidade, mas pelo risco que um artista da dimensão de Harlow decidiu tomar. É bastante louvável e o resultado poderia sair bastante arcaico e amador, mas o produto final é um álbum bastante consistente e agradável de se ouvir. É, sem sombra de dúvidas, o seu álbum mais conciso, poderoso e firme de sua discografia, já que mostra uma ótima evolução do artista e um amadurecimento muito bem-vindo.
Selo: Atlantic
Formato: LP
Gênero: Pop