Crítica | DA GAME


★★★

Houve um momento, nos anos 90, em que a reprodução de sons sintéticos nas produções de hip hop passava inevitavelmente pelo crivo de algum DJ, e quanto mais singular fosse o seu trabalho, mais ele se destacava na criação de beats e nos processos de amostragem. Na cultura de DJ e sound system britânica, essa relação começou a ganhar novos contornos quando alguns passaram a misturar esse material – muitas vezes em estado quase puro – com a estética do gangsta rap. O que havia de mais “puro” ali eram justamente os esqueletos e as ramificações do breakbeat: entre eles, o jungle, que também absorveu esse imaginário gangsta a partir da proximidade cultural entre DJs e o rap, ou seja, um cruzamento do qual emergiria o que passou a ser chamado de gangstep.

Mais do que a mistura de jungle com as manifestações urbanas e de rua do hip hop, o gangstep desenvolveu características próprias, como basslines muito distorcidas ou graves, além de sempre acenar para ambiências escuras e tensas, como se emulasse um contexto de beco e clandestinidade, com samples de filmes, sons de sirenes, tiros ou vocais com temática de rua, de batalhas. Esse som, apesar de dominar muitos contextos – e escorrer principalmente na Costa Leste dos Estados Unidos –, foi caindo em desuso conforme noções mais futuristas da virada do milênio foram surgindo, e o que restou acabou se dissolvendo no drum and bass e em outras vertentes.

DA GAME, novo EP lançado por DJ ASEXUAL, se inspira nesse contexto para revitalizar o gangstep sob um olhar contemporâneo, atual no sentido de acentuar as características do estilo e retornar às suas raízes justamente no jungle. Mais do que isso, reina, neste curto enxerto de recomposição estética, uma visão que parte de um certo revisionismo positivo – se é que isso faz sentido – pois contém sobretudo uma realidade de produção queer. A própria abertura, “DA GAME”, trata de acentuar a atmosfera urbana, versando as caixas com fragmentos vocais de rap cantados por uma voz masculina e vocalizações femininas esporádicas, num tom empoeirado que contrasta com a faixa seguinte, “MIND OF A LUNATIC”, com seus mais de sete minutos de duração imersos em um jogo sem fim de hardstep e versos que dosam algo romântico e delusional ao mesmo tempo.

DJ ASEXUAL sustenta a atmosfera noventista ao longo de toda a duração. O que elu faz para conseguir isso, aparentemente, é muito simples: evitar cair fora dos breaks moldados para estourar nas caixas de som, aspecto primordial dessa união do jungle com a estética gangsta. E, por mais que pareça simples, de fato não é. Há um controle absurdo de ritmo, de composição do tempo – onde, nos sete minutos, o sample vai entrar ou sair – que serve não apenas para nos situar e nos emergir, mas também para lembrar de onde e de que maneira parte de algumas das abordagens mais interessantes do jungle de hoje.

Selo: UPSZN!
Formato: EP
Gênero: Eletrônica / Jungle

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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