Crítica | Xiu Mutha Fuckin' Xiu: Vol. 1


★★

Xiu Xiu é uma das bandas de música experimental mais interessantes de se acompanhar em um sentido amplo. Cada formação, cada som, cada obra parecem ganhar vida própria dentro de seus contextos estéticos e de proposta, seja em discos regulares ou em lançamentos especiais. O novo trabalho deles, Xiu Mutha Fuckin’ Xiu: Vol. 1, é particularmente singular e se encaixa entre seus especiais, já que se trata de um conjunto de covers configurados e reconfigurados para fazer sentido dentro de seu próprio repertório.

Há quem enxergue os covers como um sinal de esgotamento criativo, mas dificilmente existe algo mais musicalmente vivo do que acelerar um processo natural da própria música: sua evolução e ramificação, sua capacidade de persuasão e sua expansão para além do tempo. A música talvez seja a coisa mais infinita da Terra, mais do que as gotas de água do oceano, os grãos de areia nos desertos e praias ou as palavras nos dicionários.

Xiu Xiu parece compreender isso plenamente, e é por essa razão que aqui surgem covers que transitam do inesperado ao clichê. O clichê, aliás, funciona muito bem quando é elaborado a partir do que eles têm de melhor a oferecer. É o caso de “Dancing on My Own”, de Robyn. A canção possui um cover que, inclusive, tornou-se maior do que sua versão original, mas nada se assemelha ao que é apresentado aqui. As batidas são acompanhadas por um conjunto de cordas que cresce à medida que os vocais desabrocham, sem jamais alcançar a amplitude esperada. Há um fator de surpresa, de ruptura e de incerteza emocional na escolha de interpretar e reimaginar a música dessa maneira. O resultado é quase surrealista, ao apresentar ao ouvinte a noção – nova e talvez inédita – de uma combinação que dificilmente existiria fora deste contexto.

Por isso, mesmo quando surge um sentimento semelhante, ainda que em tom de desaprovação, como em “Psycho Killer”, permanece uma intenção genuína de provocar algo por meio desses arranjos, desse tratamento e dessas ideias que parecem funcionar apenas aqui. Trata-se de um gesto alinhado a características que o Xiu Xiu sempre explorou em seu trabalho. Os covers recorrem à unicidade do som da banda, e não o contrário. Está longe de ser algo completamente inovador, e talvez nem seja essa a intenção, mas há também a responsabilidade de preservar a originalidade dessas músicas, ainda que elas se tornem, de algum modo, novas neste processo.

Selo: Polyvinyl
Formato: Compilação
Gênero: Experimental / Rock

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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