
★★★
Mas essa consciência de grandeza não vem em um certo estalo, vem em ondas, e, após praticamente uma década em reclusão e quase três décadas após a pergunta que lançou o seu nome a patamares de grandeza com Who Is Jill Scott?, o seu novo álbum de estúdio é o lugar onde consciência e confiança coexistem de maneira absoluta. Seja pela capa que representa a liberdade e o poder da mulher negra na sociedade, uma pintura linda repleta de simbolismos feita por Marcellous Lovelace – um prenúncio de um dos discursos que permeia a esfera de todo o disco, a liberdade e pertencimento de uma mulher negra.
Mesmo tendo a soul music como base, Jill e o seu time de produtores navegam por inúmeros gêneros, seja o house em “Right Here Right Now”, o hip hop abstrato com influências de billy woods e armand hammer em “The Math”, ou o neo-soul noventista na colaboração com o rapper JID. O álbum soa como um experimento divertido e agradável da cantora ao observar o novo aspecto da música atual, se juntando a novos nomes promissores, com uma ênfase na química extraordinária que a artista e a rapper Tierra Whack oferecem em “Norfside”.
“Be Great”, mesmo que seja uma das faixas iniciais, é a música que carrega com mais grandeza o tema central do álbum: o abandono da necessidade de validação de opiniões alheias. Os trompetes e o piano agudo funcionam para acentuar a veracidade e a grandiosidade do momento em que percebemos que, para exercermos a nossa grandeza, precisamos apenas de liberdade e confiança inata.
Mesmo com uma lista invejável de colaborações e com a sua maioria cumprindo o seu papel de forma exemplar, Too $hort se mostra o mais deslocado aqui, em uma música que também se demonstra um pouco confusa e até boba, “BPOTY”.. Mesmo que Jill comece a música criticando a cultura do consumismo americano, Too $hort agrega de forma mínima, com um verso que pode fazer o ouvinte se perder um pouco do tema da música, que se sustenta por um instrumental que tampouco soa em conexão com aquilo que ela tenta comunicar. Discos longos sofrem de um problema crônico de tentar manter o ouvinte engajado e alerta ao que é dito, e aqui, Jill se encontra em momentos esporádicos de marasmo em músicas que oscilam de qualidade, mas não são necessariamente ruins. Exemplos que se caracterizam neste campo seriam “Offdaback”, “Disclaimer” e “Pressha”, mas, em sua segunda metade, o disco engata e o ouvinte fica grato pela experiência rica e plural que a ele é oferecida.
Em seu regresso ao holofote, Jill nos entrega um material que tem ciência dos seus tropeços, mas nos mostra uma lenda do neo-soul se reinventando e potencializando aquilo que já era grandioso. Com liberdade e anseio de impactar, a norte-americana nos agracia com um bonito testamento, que mesmo com os seus desvios, Jill tem consciência para encontrar a sua clareza e brilho que enfatizam a artista poderosa que ela é. To Whom This May Concern não é perfeito, mas é honesto, e é na honestidade que a artista chega ao seu ápice.
Selo: Blues Babe Records
Formato: LP
Gênero: R&B / Soul