
Nessa metade da década, um movimento interessante vem se consolidando no funk nacional, especialmente em São Paulo: a retomada do protagonismo dos DJs e produtores. Não é difícil imaginar um cenário em que, num lançamento conjunto de MC Davi e DJ Mu540, as atenções se voltem mais para o produtor do que para o MC.
Nesse contexto, a figura do DJ deixa de ser apenas suporte e passa a enfrentar uma nova questão: o que fazer com esse protagonismo? HALC responde de forma direta que ele é produtor, e ponto. Seus álbuns partem dessa premissa: são obras de produtor, interessadas antes de tudo em expressar uma visão musical própria, quase como um recorte autoral sobre uma faixa estética. Em O ÚLTIMO CRIATIVO, essa escolha é, ao mesmo tempo, seu maior trunfo e seu principal limite.
Se em Bruxaria não é Phonk HALC operava num movimento duplo — explorando a sonoridade da “bruxaria” enquanto tensionava a colonização sonora do phonk e da indústria internacional —, em O ÚLTIMO CRIATIVO o gesto se desloca. O foco agora é a música eletrônica como campo de possibilidades. Mas esse deslocamento não dilui sua identidade, pelo contrário, explicita o lugar do funk dentro desse ecossistema, não como derivação, e sim como linguagem própria, com gramática e estética específicas. Não há aqui um grande manifesto, mas um compromisso musical claro. HALC transita entre diversas matrizes músicas eletronicamente produzidas (sim, bastante abrangente) sem nunca abandonar o funk como eixo estruturante, fazendo da fusão menos um apagamento e mais uma afirmação de identidade.
Agora, seria muito fácil assistir 80 tutoriais no YouTube de como fazer tal coisa type beat, colocar isso no seu álbum e terminar o dia. Não é o que acontece aqui. A aparente despretensão do disco não implica superficialidade; e sim revela um artista que estudou profundamente os sons que mobiliza. Em vez de perseguir um horizonte único, HALC opta por olhar em múltiplas direções e montar seu projeto como um mosaico. Esse talvez seja o grande mérito do álbum.
No maior pique álbum de DJ, as vozes aqui quase nunca são o centro da parada — e isso é totalmente intencional. MC GW e Yuri Redicopa não tão só ali pra usar o beat de cama e deitar verso confortável. HALC pega tudo e transforma em instrumento: plugin, sample, acapella… é tudo matéria-prima na mão dele. Ele desmonta e remonta as vozes como se fosse mais um elemento rítmico, não só um “feat”.
Mas isso não apaga os MCs, longe disso. Nanda Tsunami vem muito forte em “HOUSE KONG”, junto com o Redicopa, roubando a cena na medida certa. LH Chucro, que normalmente nem é muito a nossa praia aqui, aparece com uma cadência afiada, controle e senso de construção que elevam “MENÓ CHUCRO” pra outro nível. Já a Ari Falcão, em “BEAT SELVA”, vai no caminho oposto, e é justamente aí que tá o brilho. Ela vem mais solta, mais “jogada”, sem aquele acabamento milimétrico, e isso funciona demais. Porque é também essa energia meio indomada, esse excesso, que sempre fez o funk ser foda. Aqui não tem filtro nem lapidação excessiva: tem presença crua, e isso encaixa perfeito na lógica do disco.
Se o ponto forte de O ÚLTIMO CRIATIVO está na capacidade de absorver e reconfigurar múltiplas sonoridades, sua fraqueza surge justamente desse mesmo impulso. Há aqui um excesso difícil de conter. Com 19 faixas mais uma bônus, o álbum ultrapassa a duração ideal e, sobretudo na segunda metade, começa a cansar. Funciona melhor como set do que como escuta doméstica. Longe da energia de um galpão, algumas escolhas ficam mais evidentes, e mais problemáticas. Trechos prolongados de beat sem variação significativa ou sem condução vocal acabam gerando uma sensação de exaustão auditiva.
O desfecho do álbum concentra parte desses problemas. Sem comprometer totalmente a experiência, já que o início e o miolo são consistentes, a reta final soa dispersa, quase desinteressada. Faixas como “I’M THE GOAT” e “HIGH” parecem mais ideias que não chegaram a se resolver completamente, como se faltasse um último corte, um refinamento na montagem do disco.
Talvez um recorte mais enxuto, talvez algo entre 13 e 15 faixas, potencializasse melhor as ideias do projeto. Porque, se HALC como produtor é espetacular e encontrou um conjunto de MCs que somam muito ao seu som, talvez seja justamente a hora de alguém ajudar a segurar a onda, um produtor executivo que saiba dizer quando parar. Ainda assim, mesmo com suas inconsistências, HALC segue como um dos nomes mais interessantes de acompanhar no funk atual: um produtor que entende profundamente a matéria com que trabalha, ainda que, por vezes, se perca na própria ambição.
Selo: HINO DOS BAILES
Formato: LP
Gênero: Funk