
★★
Para gravar Fables, Isabel Pine se isolou numa cabana remota e usou apenas um “sistema básico de áudio”, além de todos os instrumentos presentes nas 15 peças e nos elementos vindos da gravação de campo. Essa simplicidade está longe de fazer com que este álbum, lançado depois de uma série de EPs e singles, soe modesto ou coisa do tipo – muito pelo contrário –, pois é deste despojamento que se revela a sua crueza.
Crueza em sentido quase literal. O domínio de Pine nas cordas é sentido por entre lufadas de ondas suaves e texturas que parecem ser lapidadas pela ambientação natural que ela encontrou na Colúmbia Britânica, lugar que aqui funciona como um refúgio seja do contexto físico, de um lugar que ela precisou deixar para trás, ou mesmo como uma saída após deixar o caminho que iniciou na faculdade que lhe renderia a posição de destaque de intérprete em um grande conjunto. Ela se viu limitada e não correspondida, de certa forma.
Talvez esse sentimento de buscar, sozinha, seguir seus próprios rumos, faça com que Fables seja um tanto pessoal, por vezes solitário, e tecnicamente assombroso. Há instantes, como em “Snow”, cuja ondulação parece transpor as camadas instrumentais por uma só nota, que sofre variações de intensidade – aumentando e diminuindo o volume conforme a música avança numa amplitude quase espacial – como se capturasse o som de uma noite em que o amanhecer e o raiar do sol nunca chegarão; e, se chegarem, as coisas não serão as mesmas. Haverá o frio, a neve. É uma construção imagética perfeita da capa do álbum.
O ponto alto de Fables, no entanto, está na faixa que lhe dá nome. “Fables” conta com uma das construções mais lindas e apoteóticas de um conjunto de cordas que eu já ouvi na vida. Violoncelo e violino duelam para saber quem irá tomar a dianteira dos ecos e da ressonância que Pine provoca, como se quisesse mostrar que conduz o ritmo não com as mãos, os dedos e todo o sistema motor-humano, mas com a alma. O melhor desse momento é a sequência criada com “West”, que parece acentuar ainda mais a dimensão das cordas. É lindo, cinematográfico.
Selo: Kranky
Formato: LP
Gênero: Experimental / Música Ambiente, Minimalismo