Crítica | XTRANHO


★★

Quando lançou Máquina do Tempo em 2020, Matuê havia dado início a um período de reinado absoluto no que se tinha de trap e hip hop na cena mainstream nacional. Não é nenhum exagero dizer que cada novo passo do artista era acompanhado por multidões eufóricas, dentro e fora dos limites online, em busca da certeza de que estariam diante de novos lançamentos seus. É verdade quando Ebony disse, muito por isso, que “fã de rapper masculino é igual diva pop”, uma vez que o comportamento deles diante de Matuê instigou semelhanças tão claras quanto evidentes.

Isso tudo, porém, não diminui em nada a capacidade de Matuê de lançar algumas das músicas mais interessantes do que grande parte dos artistas que seus fãs atacam nas redes sociais. E essa é a graça de tudo. Desde 2020, ele vem trabalhando como nossos gigantes da MPB sempre fizeram, e gigantes do trap também, caso de Raffa Moreira: importar estéticas e sons, às vezes bem delimitados, que correram o mundo lá fora e chegam aqui como coisas totalmente fora da curva. XTRANHO é o resumo desse modus operandi. Ele brinca com o rage e subgêneros que nomes como Playboi Carti estabeleceram como centrais no hip hop da década de 2020 até agora.

Matuê tem algo diferente. Sua abordagem desses estilos ganha contornos pessoais sobretudo pelo contexto de lançamento enraizado no Brasil, no nosso idioma e naquilo que estamos acostumados a ouvir. Talvez por isso o disco soe um pouco preso à fórmula que o próprio Matuê criou, e momentos como “AUTOBAHN” dão cabo disso. Nela, seus versos correm no automático, com descrições de ações e realizações que ele parecia ter abandonado em 333, e que aqui retornam com uma roupagem mais agressiva para combinar com a abordagem cartiana, somada a elementos de horror – inclusive presentes de forma muito interessante em “MEU CEMITÉRIO”, com direito a uivos de lobo – e baixos arrastados, que se repetem aos montes. Esses elementos não são necessariamente ruins ou negativos no contexto do disco; pelo contrário, são bem usados, assim como o trabalho de sampleagem, embora permaneçam estáticos do ponto de vista de até onde se pode ir com eles.

Não vai muito além disso. A repetição, talvez proposital, cria uma hegemonia desses elementos que anula pontos de interesse notáveis na obra de Matuê, é o caso da “psicodelia”, ainda presente em momentos como na sequência “XTRANHO”, “BACKSTAGE” e “TODAS AS LUZES”, ponto alto do disco. Há nelas uma unidade de quase “descanso” de tudo o que se contém na primeira parte do álbum. A estrutura funciona justamente por diminuir o ritmo, ainda que esses momentos sejam os mais próximos de uma normalidade que pode ser enfadonha. Há, ainda assim, a força de Matuê nelas: suas letras e rimas que beiram o absurdo de tão bobas, e isso vale mais do que suas investidas numa ideia que possa ser “estranha”, cerne sobre o qual o disco foi planejado desde o início.

Ou seja, a estranheza – a verdadeira – está nesses versos, com lírica que repete termos e cria comparações inusitadas o tempo todo (“Perdoar o verme? Nem morta / Perdoar o, perdoar o verme? Nem morta, perdoar o–”), e não no som estranho que lá fora se tornou a chave do estilo de vida e do gênero, mas que se relaciona com nosso contexto de outras formas. Matuê é o estranho mais popular que já existiu no rap nacional, e ficar reafirmando isso aqui nada mais é do que redundante.

Selo: 30PRAUM
Formato: LP
Gênero: Hip Hop / Trap, Rage

Matheus José

Graduando em Letras, 24 anos. É editor sênior do Aquele Tuim, em que integra as curadorias de Funk, Jazz, Música Independente, Eletrônica e Experimental.

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