Clássicos do Aquele Tuim | The Red (2015)


★★★★

Red Velvet começa a solidificar sua assinatura musical por meio de melodias contagiantes e muito exagero, no melhor dos sentidos.

Em 2015, a indústria do k-pop viveu um momento decisivo e transformador. Desde as estreias de Twice, GFriend e Seventeen, passando pelo comeback estrondoso de BIGBANG (que compôs, ao todo, sete singles) e o crescimento exponencial de BTS, muitos expoentes que definiriam o gênero nos anos subsequentes se sedimentaram naquele ano. Um fator relevante para ser considerado é que, de fato, não houve uma tendência musical hegemônica que dominasse o mercado, gerando uma diversidade sonora palpável e que acompanha os fãs do gênero até os dias atuais.

Atenta a esse panorama, a SM Entertainment também apontava para novas direções musicais e estéticas. Foi um ano de ouro para a companhia em termos de álbuns excepcionais, apresentando 4 Walls, Odd e EXODUS em um curto espaço de tempo. Nesse miolo, Red Velvet estava se desenvolvendo enquanto quinteto e tentando formar suas bases sonoras, visuais e conceituais.

No ano anterior, elas pareciam um rascunho, o esqueleto de algo que ainda estava por vir. “Happiness” e “Be Natural” apresentavam o grupo ao mundo de maneira muito rudimentar e ríspida: o lado alegre e vibrante representava o conceito red, enquanto a elegância e as baladas apontavam para o velvet. Uma estrutura funcional, mas que não empolgava o suficiente e se pendia ao senso comum de imitação formulaica de dois conceitos, que outros grupos já tentaram à exaustão (e falharam).

Em vermelho vivo e extravagante, The Red é uma impressão alucinante que contraria esses anseios. No seu primeiro full album, Red Velvet tensiona o lado red para a literalidade. Refrões viciantes, melodias cintilantes e muito exagero caracterizam as tonalidades das dez músicas presentes, que não se acanham em momento algum.

“Dumb Dumb”, a escolhida como title track, é irresistível e uma das suas melhores peças musicais: dominada por texturas eletrônicas eufóricas que se camuflam na base de saxofone, a faixa resulta em uma peça musical curiosa e envolvente de ouvir. São 219 repetições ferozes da palavra “dumb” (além de algumas emulações melódicas de sax), que martelam e nos fazem ofegar tentando acompanhar na mesma velocidade. O seu videoclipe define o tom conceitual e sonoro do álbum por completo, se concretizando como um dos mais verossímeis e compatíveis do catálogo de Red Velvet nesse sentido.

Diferente de Ice Cream Cake, é no primeiro full album que Red Velvet se prospecta como experimental, dentro dos parâmetros do k-pop, com mais confiança. “Huff n Puff” é o melhor exemplo: com uma alusão à Alice no País das Maravilhas na composição lírica, a faixa faz associações sonoras com elementos de animações infantis e bandas marciais, formando uma atmosfera perfeita para imaginar que elas são bonecas se infiltrando em lugares completamente psicodélicos. É uma estranheza palpável e muito específica, construída pelo grupo e que passou a se tornar onipresente.

Não significa, porém, que todas as músicas sigam estritamente esse escopo. O projeto é eficiente em pincelar os diferentes tons e abordagens do conceito red, agrupando esses elementos em níveis e permitindo uma experiência versátil do todo. “Oh Boy” e “Time Slip”, duas das melhores faixas, desaceleram a experimentação e são construídas nas bases do R&B (e, no caso de “Time Slip”, hip-hop), contrariando o mito de que essas sonoridades são exclusivas do lado velvet.

O álbum também foi o agente de estreia de dois nomes pretos dentro do k-pop: a compositora Tayla Parx e o produtor Dem Jointz, que antes atuavam apenas nos espaços da música estadunidense. Ambos trabalharam em conjunto em “Don’t U Wait No More”, que é intrigante e contrasta sua produção mais simples com o caos das performances vocais.

As integrantes abusam das suas habilidades e alcance, concatenando trocas ágeis de ritmo — enquanto o refrão se repete a quase exaustão e é cantarolado como um jingle, o pré-refrão é extremamente rápido, com os maiores picos de adlibs escandalosos e notas agudas (“yeaaaaah”). Nesse sentido, é a música mais maximalista do grupo até hoje. E, obviamente, inclui as duas producer tags de Dem Jointz: o próprio nome do produtor e o “incooooming”, que passou a ser bem presente no k-pop nos anos seguintes.

The Red é, de fato, o começo da solidez da assinatura musical de Red Velvet. Todas as características essenciais se apresentam aqui de maneira excelente: harmonias fortes, vocais cristalinos, produções de ponta e muita experimentação. No primeiro contato, é quase certo que o ouvinte pode estranhar — e que bom, pois isso faz parte da diversão.

Selo: SM Entertainment
Formato: LP
Gênero: K-Pop



Essa crítica faz parte do <Red Velvet Week>, um conjunto de três publicações desenvolvidas para a Aquele Tuim, que tem o intuito de comemorar os nove anos de aniversário do Red Velvet.
Felipe

Graduando em Sistemas e Mídias Digitais, com ênfase em Audiovisual, e Estagiário de Imagem na Pinacoteca do Ceará. É editor do Aquele Tuim, contribuindo com a curadoria de Música do Continente Africano.

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